domingo, 7 de dezembro de 2008

Capitu


Capitu está pronta de novo para entrar em cena. Ela não se cansa. Embora com quase 110 anos, ela ainda viceja ousadia, inteligência e feminilidade. Colabora para isso, o tempo. Em vez de a envelhecer, ele a amadurece. Fruto em ponto de colheita. Não para ser comido, mas para ser admirado, posto em fruteira no centro da mesa e ali ficar.

Penso eu que ela não queria ouvir essa peroração. Senhora de si, Capitu não precisa de elogios pelo que não fez (ou fez com muito tato). Não era dissimulada, como lhe impingiram os casmurros de plantão. Mandou todos às favas.

No centenário de morte de seu criador, eis que ela aparece redentora. Se é Bentinho quem narra a história, na condição mesma de protagonista, Capitu, a narrada, é quem dá a ele esta visibilidade, porque o drama de sua vida é encenado a partir da entrada em cena dela. Conhecemos Bentinho não por ele próprio, mas por Capitu.

É impressionante o quanto ela consegue impor-se na fala de Bentinho, até porque, diferentemente do que falam dela, é Bentinho quem vive de aparências. Quanto mais se pergunta se Capitu traiu ou não, mais sua presença desperta nos leitores a certeza de que ela não suportava alternativas. Escolhera tudo sem vacilar ou se arrepender. Tanto é que seus olhos de ressaca tinham uma força maior do que Bentinho podia suportar. Enquanto ela fixava os seus nos dele, ele se agarrava às orelhas, aos braços, aos cabelos da amada para não ser tragado.

E foram os olhos de Capitu que atraíram a atenção de Luiz Fernando Carvalho, que buscou essa mesma força nos olhos da atriz que representaria a personagem machadiana na microssérie. Só o fato de realizar uma obra "a partir do romance Dom Casmurro" e não baseado ou adaptado da mesma obra, mudando a estratégia narrativa e dando ênfase à Capitu, conjugado a uma linguagem audiovisual e encenação singulares para televisão, o diretor demonstra mais uma vez que transpor obras literárias para outras mídias, ainda mais de um clássico, é ler com outros olhos, reinventando-o.

Machado mesmo possibilitou isto, na medida em que, através de seus narradores, convidava os leitores a participarem da história, numa época em que o estatuto do autor era visto como superior ao de quem recebia a obra. A intenção se sobrepunha à recepção. Essa interatividade sugerida por Machado é recriada na microssérie com a aproximação que Luiz Fernando faz com elementos simbólicos-culturais do telespectador-leitor contemporâneo.

Configurou-se como grave, solene e mesmo casmurro a maioria dos produtos televisivos que representam épocas passadas, como se o mundo de outrora fosse sempre em preto e branco ou em sépia. Mesmo que não se fuja disso em "Capitu", a sua linguagem é híbrida no plano visual, sonoro e verbal, a começar pela abertura que, quanto à trilha sonora, vai dos instrumentos de cordas para câmara à bateria e guitarra de hardcore.

Esta integração entre o previsível de uma constituição de época e a possibilidade de sua reconstituição se desdobra durante toda a microssérie, como nas imagens de trens a vapor antigos e de trens elétricos atuais, onde, em meio a figurantes sem cartola e bengala, trabalhadores da grande metrópole fluminense, Bentinho explica seu apelido. E o que dizer do baile em que todos os personagens dançam ouvindo mp3?

É certo que Luiz Fernando vai mais uma vez receber críticas pela sua ousadia, mas aos poucos ele se afirma como um dos mais criativos diretores de televisão. Trajetória que começou no cinema e desaguou na televisão. Seu primeiro e único longa-metragem é "Lavoura Arcaica", baseado no romance de Raduan Nassar.

"Capitu" é a segunda microssérie do projeto de Luiz Fernando chamado Quadrante, que visa a recriar textos de autores de diversas regiões brasileiras. O primeiro foi "A Pedra do Reino", de Ariano Suassuna (PB), comentado aqui no blog. O próximo será "Dançar Tango em Porto Alegre", de Sérgio Faraco (RS), e o último,"Dois Irmãos", de Milton Hatoum (AM).

Esta aproximação de Luiz Fernando Carvalho com literatura não é de se estranhar: ele estudou letras. Isso não é tudo para se fazer boa adaptação, mas também não é uma referência qualquer. Aguardemos os dois outros quadrantes dessa circunferência literária desenhada por Luiz Fernando. Ah, ele também estudou arquitetura. É engenho e arte na televisão.

Um comentário:

Edvaldo Filho disse...

Infelizmente terei de esperar o lançamento do DVD da série, proibitiva para mim que trabalha à noite e tenta dormir cedo nas noites de folga. Infelizmente porque as chamadas capturaram a minha atenção e eu não queria perder...

Saudades do vídeo cassete ;(