domingo, 14 de março de 2010

O Colegial - conto




Penso em você. O que? E continuou a andar. Não acreditou no que ouviu, mas também não quis explicação. A pergunta foi para se esquivar. Sim, penso em você. Não o conheço, como pode pensar em mim? E precisa te conhecer pra ser admirado? Sempre quando vou à padaria, no final da tarde, ele passa por mim. Umas vezes, me olha fixamente. Outras, desvia o olhar, mas continua olhando pelo canto do olho. É impressão minha ou quando estamos em lados opostos da rua ele atravessa para o meu lado? Ei, cara, vou ter que adiantar, não vou ficar pro jogo. Todo dia é isso. Amanhã eu fico. Amanhã, amanhã... vou botar outro no seu lugar. É que tenho que estudar, velho, perdi em três matérias. Suas pernas longas, grossas, de poucos pêlos, estão sempre à mostra por conta dos shorts azul, preto, ontem estava com o que mais gosto, branco com aberturas laterais, bem curto. O peitoral é de quem está malhando, os braços também. Os ombros bem alinhados. O pescoço, rijo. Suas feições são já de adulto, mas o olhar é de menino, curioso e traquina. Pelugens cheias de falhas estão nascendo nas laterais do rosto, no queixo, mas quem disse que ele pensa em tirar? Nem eu quero, essa hombridade juvenil me encanta, nele especialmente. E a voz é forte. Ouvi agora, quando falou “como pode pensar em mim?” Como pode? No banheiro, depois de chegar em casa, ele repetiu aquela frase enquanto se ensaboava, mão nas axilas, no peito, na virilha... Nunca o vi com o uniforme, mas deve estudar no Salesiano, já que por duas vezes acompanhava outros rapazes deste colégio. Ele é o meu colegial. De escola pública ou particular, pouco importa. Está interessado em aprender muitas coisas e eu em ensinar. E aprender também. Não parece ser tão ingênuo assim. Se tiver 18 anos, para mim, que tenho 30, não chega a ser desproporcional. Sim, ele tem 18. Perguntei numa segunda tentativa de puxar uma conversa. Desta vez, parou um pouco e com certa irritação pediu que não mais falasse com ele. Tenho namorada e não curto essa, falou? Nesse dia, jogou uma partida com o colega que insistia há vários dias. Estava suado, seu cabelo molhado, sua blusa colada à barriga, seu cheiro viril. Até que enfim, hein, acho que tem outra coisa aí? Aí, o quê? Ah, essa de você não querer mais jogar com a gente e fugir sempre neste horário... Ô, não é você que diz sempre “amanhã, amanhã”? Tá desconfiado de quê? Nada, cara, só falei que... Já disse, tô estudando muito. Antes era você quem insistia, até esquecia que tinha algum trabalho de aula para fazer. Pois é, agora, tomei responsabilidade, minha mãe disse que do jeito que estava não dava mais para aceitar. Fique um pouco, vamos tomar um caldo de cana na barraca. Tenho que ir, cara, já está anoitecendo. Já vai estudar? Não, vou descansar. Acelerou o passo e ainda conseguiu me ver dobrando a esquina com o saco de pão quentinho. Adiantou-se, passou por mim e seguiu sem olhar para trás. Tentei acompanhá-lo e quando estava bem perto disse: Ei, espere. Virou-se repentinamente e estendeu o braço para me empurrar, teria sido isso mesmo ou um gesto involutário, de insegurança e desejo juntos? Defendi-me com o saco, que caiu no chão, espalhando alguns pães. Desculpe, cara, não foi minha intenção. Agachou-se e recolheu os pães. Não, estes não servem mais. Fechou o saco e me deu. Desculpe. E saiu. Envergonhado. Eu sorri, perdoei. Em casa, tomou vitamina de banana e comeu pão com queijo. Lembrou do cara do pão quentinho que dá em cima dele todo dia no final da tarde. O colega de futebol liga. Festa amanhã. Vou. Às 9, passo aí. Falou. Arrumado, espera no playground do edíficio. Que festa é essa? De uns caras que eu conheço, gente do bem. Que tipo? Dá de tudo lá. Drogas? Também. Tô fora. Meninas, meninos, adultos, coroas... Pararam antes num posto de gasolina, beberam energéticos. Veio o papo. Danilo. Danilo é o nome dele. O que é? Antes de chegar lá quero te falar uma coisa. Sim. Velho, fique na sua, calado, não fale pra ninguém. Qual é o segredo? É que tô curtindo um cara bacana, de 28 anos, gay, figura nota 10. O quê? Repita aí. É isso mesmo. Você é viado? Não é isso. Sou bi-transitivo, tipo verbo com dois complementos. Roger, isso é grave. O mundo não vai acabar não, Danilo. Não acredito. E tem mais: sempre achei você interessante, mas... Mas, o quê? Mas sei que não é sua curtição. Ainda bem que pensa assim. É isso. E é pra lá que nós vamos? Pra casa de seu namoradinho? É. Por que não disse antes? Você não corre perigo, ninguém vai te aborrecer, estarei por perto. Quero ver. A surpresa. Eu estava lá. Amicíssimo do aniversariante, quase irmão de sangue, era presença mais do que especial. E Roger chega com Danilo. Seus olhos se abriram e assim ficaram congelados e assim mostraram que eu não era real. Inimaginável. Eu, que estava bebendo um gole de champanha, engasguei. Danilo sacou na hora. Não houve disfarces. Impactante mesmo, ainda mais que fui eu quem os recebi. Na sala de visitas, tinha poucas pessoas, a maioria estava no jardim e ao redor da piscina. Se conhecem? Não!, disse ele rápido. Sim, respondi apertando sua mão, mas não sei seu nome. Trêmula a mão, gelada também. Roger me olhou com sorriso irônico. Danilo. Guido. Neste instante, aparece o anfitrião. Paulo. Demorou, Roger. Trouxe aquele colega que te disse. Oi, Danilo. Cumprimento frio. O que foi que aconteceu com ele? Pergunte a Guido. Não tenho nada a dizer. Será? Roger, vou embora. Não, cara, relaxe. Dei um lenço de papel para ele. Suava nervoso. Não enxugou, amassou na mão. Sente aí, rapaz, tome um refrigerante, aqui menor não bebe álcool. Tenho 18 anos. Liberado então. Roger, cuide dele, Guido, venha cá. Contei tudo a Paulo. Ele é lindo, amigo, mas pelo que Roger me disse ele não curte. Respeito sua posição, mas não resisto em investir toda vez que o vejo. Esse é o momento de vocês conversarem. Roger pode ajudar. Esse cara me segue todo dia quando saio do colégio, Roger. Mas ele é do bem, discreto, inteligente e educado, mora ali, no Jardim Baiano, é professor universitário. Sim, isso tudo não me diz nada. Tudo bem, mas é uma referência boa dele e está sozinho. Você tá me jogando pra ele? Não sei, depende de você. Velho, não sou gay, não! Tem certeza? Tenho. Não achei firmeza nesse “tenho”. Tá me estranhando, é? Sabe de uma coisa, cara, é coisa de amigo o que vou falar. Diz. Acho que você tem vontade e curiosidade de transar com outro homem, e digo mais, por diversas vezes já flagrei você secando Robson do 3° ano vespertino, aquele moreno que faz natação... Qualé, Roger! Ele é interessante, não é? Sei lá! Sabe, sim, se lembra daquela vez quando ele foi para o vestuário tomar banho depois do jogo? Não sei. Você foi o único a acompanhá-lo. E daí? Daí que, demorou um pouco e todo mundo foi embora, só eu na quadra, depois entrei no vestuário sem ninguém perceber e vi você se masturbando na sua cabine, olhando pro cara no chuveiro. O quê? E não foi? Seu sacana! Relaxe, relaxe, ninguém vai saber. Eu me aproximo e pergunto se os dois vão beber algo. Faça companhia aqui a ele, Guido, que vou pegar. Ei, também vou, disse o rapaz. Fica, insisti. Ele se acomodou no canto do sofá. Que é que você quer comigo? Sempre gostei de você, mas nunca tive jeito de me aproximar. Agora não tem jeito, né? E sorriu para mim. Virou os olhos em seguida e começou a mexer nervosamente os pés. Se acalme, Danilo. Não deveria ter vindo. Mas você está aqui e não vai sair enquanto não conversar comigo. Altas horas, quase amanhecendo e nós, sozinhos, deitados nas cadeiras de sol ao lado da piscina. Quase todos os convidados já tinham ido embora, só restando mesmo Roger, Paulo e três outros casais gays. Conversamos sobre nossos sonhos e fantasias, decepções e experiências, desejos e tesões. Ele já tinha parado de beber antes de ficar bêbado, mesmo assim, pareceu mais desinibido, a ponto de me puxar, pela mão, da sala para a cobertura. Ela é macia, mas grande e forte como de um titã. Pensei em não forçar a barra. Agora que eu já lhe disse tudo o que pensava a seu respeito, deixei-o decidir. Posso continuar pensando em você? Sua resposta foi um sorriso mínimo, mas que entendi como expressão mesma de sua timidez. Domingo se passou e a ansiedade de, na segunda, à tarde, naquela hora em que é mais gostoso comprar e comer pão quentinho, eu ver meu colegial passar. Será que ele vai me cumprimentar? Tudo bem, como foi o fim-de-semana? Falei com o atendente da padaria, Vou querer seis francês. Paguei. O próximo. Um sonho. Estaquei com meu coração palpitando a mil. Aquela voz... Olhei para trás. Um não, dois, você quer um Guido? Não respondi, emudeci. Fiquei sem chão. Sem ar. Sem argumentos para dizer não. Pães quentinhos no saco. Saímos da padaria comendo sonhos açucarados com recheio de goiabada. Tudo doce. Tudo um sonho mesmo. Fez o que ontem? Dormi até de tarde, depois fui pra casa de minha namorada, e você? Fiquei lendo, assistindo a alguns documentários na tevê, internet... Limpe o canto da boca, está sujo. E me deu seu guardanapo. Obrigado. Desculpe se naquela noite eu fui grosso com você, entenda, é difícil para eu aceitar isso. Isso o quê? Você. Eu? Sim, você e... eu. Eu não lhe disse, mas eu não ficava até de noite na quadra com os colegas, depois das aulas, porque queria saber quem era você... Sério? Sério, achei muita coragem encarar outro homem e dizer “penso em você”, não teria tanta ousadia... Demorou para que eu decidisse fazer isso. Foi a primeira vez que eu me deparei com isso. Você gostou? Não quis aceitar que gostei, daí minha confusão. O que você acha de mim? Um broder sério, plantado, faz meu tipo. Rimos do avanço que a conversa estava tomando. Chegamos à esquina da minha rua. Aceita um café? Não tomo. Faço então um chocolate. Será que devo aceitar? Vamos terminar de comer esse sonho lá em casa. Não sei, não quero ir para... Para, o quê? Só o chocolate, falou? Não respondi. Numa igreja perto, os sinos anunciavam a hora da Ave Maria. O céu de verão ainda estava claro, raios de sol entravam suavemente pela janela da minha sala. E pelo quarto também. Mas quando deitamos na cama, só a brisa quente é que vinha de fora. Os mesmos sinos horas depois nos acordaram de um sonho quase eterno. E o telefone celular dele também. Tenho de ir pra casa, amanhã em frente à padaria a gente se vê. E eu voltei pra cama. No lado, onde ele dormia minutos antes, ainda estava quente como um pãozinho saído do forno...

2 comentários:

Milton Cardoso disse...

Adorei o conto. Como tudo que Marielson Carvalho escreve. Simples, direto, o inconfundível estilo do baiano de prosa boa...

Ana Santiago disse...

Professor, entre em contato com Prof. Maurilio: mauriliusdias@hotmail.com