segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Rota do Açúcar - Alagoas, parte 1





Na Serra da Barriga, Memorial Zumbi dos Palmares, União dos Palmares, Alagoas



Em frente à casa-grande do Engenho Inhumas, União dos Palmares, Alagoas



Casa-grande e senzala no alto e capela embaixo. Fazenda Marrecas, Maragogi, Alagoas


Quando saí de Salvador, dia 22, eu pernoitei em Maceió. Na manhã seguinte, segui para Recife. Minha intenção era fazer os engenhos de Alagoas no retorno para Salvador, a partir do dia 28.

E assim o fiz. O primeiro engenho de Alagoas foi o Marrecas, em Maragogi, litoral norte do Estado. Infelizmente cheguei já no final da tarde e não pude conhecer as praias da cidade que, segundo os roteiros, estão entre as mais lindas do Nordeste.

A Fazenda Marrecas se transformou em hotel-fazenda de boa estrutura. A casa-grande e a senzala ficam numa elevação, de onde pode se ver a capela e as instalações mais novas da propriedade. Não encontrei vestígios da moita, mas seu conjunto arquitetônico é bem vistoso quando se vê da estrada de barro que dá acesso a sua entrada principal.

Pedi autorização à recepção para conhecer o espaço mais público do hotel-fazenda, ou seja, a varanda da casa-grande e a capela, onde no momento estava ocorrendo uma missa. Fiquei satisfeito com a visita, poderia ter até me hospedado lá para aproveitar mais, no entanto, gostaria de ainda chegar à Maceió e no dia seguinte seguir para União dos Palmares.

No meio do caminho, calculando a quilometragem entre em ir para a capital ou União dos Palmares, decidi pela última, mesmo correndo o risco de trafegar por rodovias estaduais pouco conservadas. Cheguei três horas depois, numa viagem que, segundo o GPS, seria feita em duas.

União dos Palmares estava em festa de sua padroeira e as praças estavam coloridas de luzes do parque de diversão e do palco de shows musicais de axé, pagode, brega e arrocha. Depois de tomar banho e descansar um pouco, fui conhecer a festa.

Não podia atravessar a madrugada, pois de manhã cedo queria conhecer a Serra da Barriga, onde está o Memorial Zumbi dos Palmares, e o Engenho Inhumas. Como coincidentemente era também dia de feira, não encontrei o centro cultural aberto, onde nasceu o poeta Jorge de Lima.

Minha opção foi encontrar uma agência de viagens para conseguir um guia. E por sorte, achei a agência da ex-secretaria de Turismo da cidade, que me indicou um guia, Carlos, funcionário da mesma secretaria.

Muito gentil e atencioso, ele me levou primeiramente ao Engenho Inhumas, de propriedade da família de Isabel, atual secretária de Turismo, que durante uma hora ou mais nos contou sobre as histórias do engenho. A casa-grande está conservada, mas carente de uma restauração em alguns cômodos para se transformar num hotel-fazenda, intenção essa ainda em discussão entre os herdeiros.

Após essa visita, subimos a Serra da Barriga, onde, sobre seu platô, existiu o centro do maior quilombo de escravos do Brasil. No seu lugar, construiu-se o Memorial Zumbi dos Palmares. A chuva impediu um pouco a visitação, mas pude ter a noção da proposta do espaço cultural tombado pelo IPHAN. E para saudar os nossos ancestrais africanos, comemos um acarajé quentinho no término do passeio.

Ainda pretendia, no período da tarde visitar a Usina Leão, em Rio Largo, próxima à Maceió, onde eu de novo iria pernoitar. Peguei a estrada e, por não saber onde ficava a usina, entrei na cidade que tem uma paisagem do Rio Mundaú e suas corredeiras muito bonitas, além de seu casario secular ainda conservado.

Ensinaram-me o caminho certo para chegar as ruínas da antiga Usina Leão, mas o espaço reservado para visitação pela indústria moderna, que se localiza a cinco quilômetros da primeira construção movida a vapor, não foi liberado para eu entrar, porque não havia mais ninguém na administração para autorizar. No entanto, o chefe da segurança educadamente permitiu que eu fotografasse e filmasse bem rápido uma parte do prédio.

Roteiro cumprido neste dia, dormi em Maceió para na manhã seguinte conhecer os engenhos do litoral sul. No outro post, vou contar minha passagem por Pilar, Marechal Deodoro, Coruripe e Penedo.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Rota do Açúcar - Pernambuco, parte 2


Engenho Uruaé, Goiana, Pernambuco



Engenho Cueirinhas, Vicência, Pernambuco



Engenho Várzea Grande, Vicência, Pernambuco



Vista da varanda da casa-grande do Engenho Poço Comprido para a moita, à esquerda


Capela e casa-grande do Engenho Poço Comprido, Vicência, Pernambuco




Ao pegar a estrada para a Zona da Mata pernambucana, a pretensão era seguir até Goiana, dormir lá e descer direto para o norte de Alagoas e conhecer Maragoji, onde está a Fazenda Marrecas.

A primeira cidade foi Nazaré da Mata, a Terra do Maracatu Rural, maior manifestação cultural do Carnaval de Pernambuco. Esta é minha opinião. O frevo é mais forte em Recife e Olinda, mas o maracatu é o que de fato dá o tom da beleza cênica e performática da festa no Estado, além de religiosa e simbólica. Sem maracatu, não tem folia.

Ao chegar, fui logo conhecer o Parque dos Lanceiros, na entrada da cidade, onde tive a sorte de conversar com o Mestre Barachinha, que me informou tudo o que pôde contar no pouco tempo que eu tinha. Já era quase meio-dia e eu ainda precisava visitar três engenhos. A chuva era um impeditivo a mais.

No museu do Parque, visitei uma pequena exposição permanente de objetos e adereços de maracatus, assim como painéis informativos sobre os grupos. Mestre Barachinha, muito atencioso e bem informado, deu uma aula de cultura popular.

O Engenho Cueirinhas foi transformado em hotel-fazenda, com uma estrutura muito bem construída, além da casa-grande, que é o único prédio original da propriedade. A capela foi levantada depois, assim como a casa do administrador.

A dona Leonor mantém sozinha o engenho, depois que seu marido faleceu. No momento da visita, ela não estava, mas autorizou que seu caseiro, Nido, me guiasse por onde eu quisesse. E assim, fizemos. Encantei-me com a preocupação dos proprietários em manter a ambiência de uma casa antiga ao reconstituir com móveis e objetos a decoração dos cômodos.

Fiquei com vontade de passar um fim-de-semana no Engenho, que tem opções de lazer típicas de um hotel-fazenda. As refeições são servidas num imenso galpão, outrora estrebaria, e que pela gradiosidade da mesa, a comida não deve se pouca.

Como fica na beira da rodovia, numa elevação entre várias árvores, não deu para fotografar a sua fachada inteira, mas a foto da varanda dá a idéia da amplitude de sua arquitetura. Não é um dos maiores, mas toda casa-grande é simbólica e materialmente a maior casa de um engenho, assim, me senti num palacete.

No caminho para Vicência, passei pelo Engenho Várzea Grande, e como sempre, me encantei com a preservação das construções, pelo menos externamente. Neste caso, da própria casa-grande e da capela, além de verificar a existência de prédios não comuns em engenhos do século XIX, como padaria e oficina, o que indica de que houve adaptações ao longo do século XX.

Não pude entrar, pois é propriedade particular e, portanto, não tinha pedido autorização. Nem pude negociar com o caseiro uma espiadela mais de perto na casa. As fotos tiradas do lado de fora estão boas e matou minha vontade.

A partir daí, virei caçador de engenho. Tudo que era construção à beira da estrada na qual eu via uma torre, eu parava e perguntava a quem estivesse perto. Muitas só tinham mesmo a torre, mais nada, ou então ruínas irreconhecíveis de antigas moitas.

Em Vicência, minha aventura foi feita lama adentro até chegar no Engenho Poço Comprido, o único engenho tombado pelo IPHAN, segundo Jane, diretora de cultura e da associação que preserva o patrimônio artístico-cultural da cidade.

De fato, vendo o trabalho de restauração do engenho, entendi o porquê de tamanho cuidado com esse engenho. A visita foi muito bem guiada por Jane, que de forma bem didática, me explicou passo a passo a trajetória do engenho.

Embora esteja em terras de uma usina, inclusive há uma vila de trabalhadores no entorno do antigo engenho, existe uma abertura para que projetos viabilizem a manutenção do complexo.

Algumas curiosidades dão ao Poço Comprido uma beleza especial. Primeiro, é um dos poucos engenhos, cuja casa-grande tem um passadiço ligando-o à capela. Na verdade, ambos eram afastados, mas com as sucessivas reformas, os proprietários foram estendendo para os lados, a ponto de anexar prédios dispersos. A cozinha foi também um deles.

Outro detalhe, é que o prédio foi construído em taipa, o que demonstra a rusticidade da casa-grande, diferentemente das casas da Zona da Mata sul, que por pertencerem à Capitania de Pernambuco, mais rica do que a de Itamaracá, foram mais elaborada, do ponto de vista dos detalhes.

Passei uma hora imerso na vida do Engenho Poço Comprido. Da varanda, pode-se constatar o que é comentado em diversos textos. Ou seja, quanto mais elevada era a casa-grande, mas se tinha a certeza de posse, porque a certeza de ser dono tinha que estar à sua frente, visível.

Na mesma estrada que dá no Poço Comprido, tem mais adiante o Iguape, que já virou autosustentável por explorar o espaço para hospedagem. A tarde estava caindo e eu precisava ainda chegar à Goiana.

O dia foi muito produtivo. Ou melhor, todos os dias têm sido ricos em descobertas. Inclusive, de mudanças de destinos. Em Goiana, como não consegui encontrar o Engenho Uruaé, decidi retornar à Recife, mas no meio do caminho vi a placa para João Pessoa.

Abri mão de dois dias que perderia em Alagoas para rever os amigos em Jampa. Esse capítulo não entra.

Só no retorno para Recife, foi que conheci o Engenho Uruaé, a poucos quilômetros do centro de Goiana.

No próximo post, volto a falar sobre Alagoas.


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Rota do Açúcar - Pernambuco, parte 1




Mirante de Vila Velha, antiga sede de Itamaracá, para o canal que divide a ilha do continente.

Os primeiros engenhos visitados nesta viagem pela Rota do Açúcar foram os de Pernambuco, especialmente de quatro cidades: Igarassu, Itamaracá, Nazaré da Mata e Vicência. Como decidi começar por esse Estado, tive que dividir em dois roteiros. No primeiro dia, Igarassu e Itamaracá por serem cidades próximas a Recife; no segundo dia, Nazaré da Mata e Vicência. Goiana estava também no roteiro, mas houve uma mudança no plano de vôo e, em vez de pernoitar na cidade e na manhã seguinte visitar o Engenho Uraié, fui para João Pessoa por estar à meia hora de distância e por ser a capital de que mais gosto entre as da Rota. Como expliquei no post anterior, os engenhos da Paraíba serão visitados noutro momento.
Antes de ir para Igarassu e Itamaracá, eu passei no Museu Gilberto Freyre, em Apipucos, a casa onde o escritor viveu por mais de 30 anos, ela mesma uma das casas-grande do antigo Engenho dos Irmãos. É uma bela quinta, que fica numa elevação e vizinha ao Convento dos Maristas. Aparentemente é grande, devido ao fronstispício largo e alto, mas tem as dimensões mesmas de uma residência de temporada de seus ex-proprietários. Segundo a guia, a estudante de História, Helga, a casa passou a ter status de principal, devido às enchentes do rio que margeava a casa-grande maior tê-la inundado. É proibido filmar e fotografar no interior do museu, no entanto, as informações da guia valeram mais do que rolos de filmes.
Em Itamaracá, só existia no roteiro o Engenho São João. Ele fica às margens da rodovia estadual que liga a ilha ao continente. Embora sob responsabilidade da FUNDARPE, órgão do governo do Estado de patrimônio histórico, o engenho não tem guia para acompanhar os visitantes, apenas um zelador que não tem muitas informações a dar. O que mais chama à atenção é o prédio da moita, onde ainda se vê o maquinário a vapor, o primeiro a ser usado em engenho pernambucano. A área do engenho, que compreende de casa de farinha, posto de saúde e ruínas da casa do administrador, é usada como colônia agrícola para ressocialização de detentos.
Para chegar à ilha, temos que passar por Igarassu, que tem um centro histórico bem conservado, cujos prédios avultam quando se chega na zona central da cidade, principalmente o conjunto do convento, igrejas e paço municipal, além do casario nas imediações.
Em Igarassu, tem dois engenhos listados. O Munjope é o mais importante em termos de arquitetura de Pernambuco, segundo o historiador Roberto Carneiro, da FUNDARPE, com quem mantive contato, e fica na BR 101, retornando para Recife. Mas eu não pude visitá-lo, porque errei o caminho e, como já estava anoitecendo, não queria arriscar.
A importância do Munjope, deve-se a preservação original de seu conjunto, ou seja, casa-grande, capela, moita e senzala, diferentemente dos outros que não tem todos esses prédios. Mesmo que eu acertasse o caminho, não poderia entrar, pois precisa de autorização da FUNDARPE. Ele está sendo reformado e, enquanto estiver nesse processo, não é liberada a visitação, no entanto, o historiador disse que poderia abrir uma exceção para mim.
Planejei visitá-lo no retorno de Goiana, pela mesma BR 101, quando fizesse a rota dos engenhos da zona da mata, na quinta, dia 27, mas não o fiz, porque ao chegar em Goiana, no limite com a Paraíba, na quarta, 26, decidi mudar a rota e visitar João Pessoa.
No próximo post, falarei sobre os engenhos de Vicência e Nazaré da Mata.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Engenhos literários e sentimentais


Logo do Roteiro Integrado da Civilização da Açúcar



O começo da viagem na divisa da Bahia com Sergipe.
Até Recife, foi muito chão, chuva e chocolate, para distrair a boca e dá energia.




Fundação Gilberto Freyre, em Apipucos, Recife, casa-grande onde ele morou, o qual escreveu vários textos sobre a "civilização do açúcar". Lugar belíssimo e inspirador.


Desde sábado, estou viajando de carro pela Rota do Açúcar, ou como institucionalmente o Ministério do Turismo denominou de Roteiro Integrado da Civilização do Açúcar, um produto turístico que visa a diversificar as opções de visitação ao Nordeste, incluindo o interior.

Este projeto engloba os engenhos e usinas de açúcar de Alagoas, Pernambuco e Paraíba, no qual mostra a arquitetura e a memória cultural das cidades e comunidades que surgiram a partir do plantio da cana e da produção de seus derivados, como açúcar, cachaça, álcool e rapadura.

Antes da integração dos Estados em consolidar este produto que, se não é inovador, é rico em opções, eu já me interessava, mesmo que com pouca dedicação de pesquisa, às referências desta cultura do açúcar nas obras de autores nordestinos, como José Lins do Rego, Gilberto Freyre, João Cabral de Melo Neto, Jorge de Lima, José Américo de Almeida, Graciliano Ramos etc.

Agora, decidi unir lazer e trabalho nessas férias para realizar esta viagem de mapeamento pelos engenhos listados no Roteiro. Como o tempo é pouco para percorrer todos as cidades, fiz um recorte geográfico para Alagoas e Pernambuco neste primeiro momento.

É a rota mais rápida, devido à proximidade entre as capitais e os engenhos. A Paraíba foi o primeiro Estado a fazer seu próprio roteiro, já consolidado com produtos diferenciados, como festas populares e degustação de bebidas nas cachaçarias do Brejo, onde se localizam as cidades de Areia, Bananeiras e Serraria. Este roteiro, pretendo fazer na segunda excursão.

Meu projeto se chama "Engenhos Literários e Sentimentais" e deverá ser um documentário de longa-metragem, para 0 qual devo captar recursos e começar as filmagens ainda neste ano. É uma idéia original, cujo interesse tem despertado a atenção de profissionais ligados ao patrimônio histórico e ao turismo. O contato com os gestores nessas áreas têm sido muito proveitoso, pois precisarei de seus conhecimentos para preparar o roteiro audiovisual, inclusive com gravação de seus depoimentos.

Nesta viagem, eu vou fazer o caminho inverso. Segui direto até Recife, com parada em Maceió para pernoite no sábado. Em Pernambuco, devo ficar três dias. Hoje, visitei Igarassu e Itamaracá. Terça, vou mais longe: Nazaré da Mata, Vicência e Goiana. Retorno quarta para Recife e sigo noutro dia para Alagoas, onde começo por Maragoji (norte) até Coruripe (sul). Pretendo chegar a Salvador na segunda-feira, dia 30.

Está sendo uma aventura com sabor de rapadura e talagada de cachaça, tudo isso com moderação, senão dá dor de barriga e embebeda, e ficar indisposto e não poder dirigir é perder o bom da viagem, a descoberta de lugares desconhecidos.


quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Acontece que eu sou baiano - o livro


A repercussão de meu primeiro livro tem sido surpreendente, talvez menos pelo autor, mais pelo que ele escreveu, assim como pelo tema que analisa, a saber, a baianidade de Dorival Caymmi.

Falo isso sem nenhuma ponta de falsa modéstia, até porque, confesso, devo muito a boa aceitação do livro ao próprio Dorival Caymmi, que por si só já é uma figura importante na cultura e na música brasileira.

Meu contato com ele inicialmente foi por telefone, que se estendeu por sete anos, até chegar o dia de conhecê-lo pessoalmente no Teatro Castro Alves, em 2006, na entrega do Prêmio Jorge Amado de Cultura e Arte. Doce, atencioso e falante, Caymmi recebeu de bom grado a proposta de meu trabalho sobre sua obra. Às vezes, vi-me obrigado a ter o distanciamento devido de pesquisador e evitar uma proximidade de admirador, mas no dia do evento não me contive de emoção ao apertar sua mão que tanto escreveu canções representativas de nosso cancioneiro nacional. Após sua morte, já com a dissertação de mestrado defendida e recomendada para publicação pela banca, mas guardada no fundo da gaveta, fui motivado por amigos e pela necessidade de prestar-lhe uma homenagem. Consegui apoio da Fapesb para 300 exemplares. Edição esgotada. A editora fez mais cem exemplares para atender ao edital da Fundação Pedro Calmon, que selecionou meu livro para ser distribuído nas bibliotecas públicas do Estado. No dia do lançamento em Salvador, na Galeria do Livro, dos cem exemplares disponíveis, vendi 67. Foi uma noite de sexta-feira de happy hour literário festivo ao som de violino, violão e percussão tocando Caymmi, regada com bebidinhas, doces e salgados variados e acarajé feito na hora, além da alegria de amigos, colegas e parentes... Agradeço à imprensa que apoiou na divulgação do livro em diferentes meios. Meus agradecimentos especiais:

À Patrícia Moreira, do Caderno 2+, de A Tarde, que conheci na Bienal do Livro de São Paulo, onde lancei a convite da Associação Brasileira das Editoras Universitárias. A jornalista acreditou na proposta de meu livro e abriu espaço com uma entrevista de página inteira na edição do caderno no dia do lançamento.

À Tv Aratu, pelo repórter Cristiano Gobbi, que fez uma matéria muito criativa e coerente com a proposta do livro, retratando a partir do local onde foi dada a entrevista, no Rio Vermelho, personagens emblemáticos do cancioneiro caymmiano como o pescador e a baiana de acarajé.

Às rádios Excelsior (Salvador) e Unesp FM (São Paulo) pela minha participação em dois programas para públicos diferentes e que, na primeira emissora, me deu a experiência de falar ao vivo com ouvintes que me conheciam, como Júlia, bilbiotecária da UFBA, funcionária homenageada pela minha turma na formatura de Letras. Na rádio paulista, gravado por telefone, falei para um público mais literário. Confira aqui a entrevista. É a de nº 932 no playlist.

À TVE, que divulgou o livro antes do lançamento, no TVE Revista como dica da agenda cultural; durante o evento, com exibição no mesmo programa; e depois, no Soterópolis, numa matéria bem produzida pela equipe de um dos programas mais criativos da televisão local. Além disso, tive o apoio de blogs de amigos e de desconhecidos, notas em jornais locais e sites informativos.

Agradeço imensamente a Andréia Fiamenghi, da Galeria do Livro, no Espaço Unibanco, pela recepção ao livro e a extravagância do autor em fazer um evento lítero-musical em uma extensão recém-inaugurada de sua livraria. Enfim, agradeço a todos os caymmianos veteranos e novatos, sem os quais o livro não teria tido a trajetória que tem construído. Agora, é partir para a 2ª edição, porque a fila de pedidos está crescendo.

sábado, 13 de novembro de 2010

Ildásio Tavares, um mestre



O poeta Ildásio Tavares faleceu no dia 31 de outubro. Soube de seu funeral, quando já tinha acontecido, no dia seguinte. Rascunhei esse texto para lembrar de meu contato com ele.
Conheci Ildásio Tavares durante o curso de Letras na UFBA. Antes mesmo de ser seu aluno em Literatura Portuguesa II, já nos cruzávamos pelos corredores, mas sem nos cumprimentarmos. Passava sempre sério e demonstrava certa sisudez.
Quando tínhamos aulas de outras disciplinas na sala de pesquisa do setor de Literatura Portuguesa, eu pegava, por curiosidade, alguns livros de sua autoria para ler, colocados numa estante de aço, encostada a uma parede desenhada por um opachorô de Oxalá à lápis de cera. Só soube que aquele desenho era dele pelas faxineiras do Instituto de Letras, que foram obrigadas a não limpar a parede porque o professor Ildásio não permitia.
Quando fui seu aluno, tive umas das maiores descobertas literárias, uma experiência de leitura que até hoje não perdeu o viço daquele instante. Fernando Pessoa e Florbela Espanca me foram revelados pela didática nada convencional de Ildásio Tavares, entre anárquica e contemplativa.
Lembro-me que o prazo para entrega do trabalho sobre o autor português de nossa escolha tinha acabado, mas que pelo meu interesse e participação na disciplina, foram dados mais três dias de tolerância. A data coincidia com a posse de um novo membro na Academia de Letras da Bahia e ele disse que eu levasse lá. Como não tinha ainda habilidade com o computador, que horas antes apagou o documento, fiz o trabalho à mão, que resultou em vinte páginas.
A partir deste envolvimento acadêmico, Ildásio me convidou duas vezes para visitar sua casa na Pedra do Sal, em Itapuã, rua Vinicius de Moraes. Na primeira vez, foi um almoço com outros colegas. Na ocasião, muito receptivo, fez um peixe assado, um verdadeiro manjar. Na segunda vez, foi para me presentear com livros seus.
Sua generosidade comigo foi maior, quando sofri um assalto violento em Lisboa em 1996, em viagem de turismo. Fiquei hospitalizado por um mês e meio, com os braços fraturados e escoriações diversas. Prontamente ao saber do caso pelos jornais, enviou um fax a um amigo seu, pedido ajuda para me atender. Eis as suas palavras:
Caro Aéssio: Marielson Carvalho Bispo da Silva, aluno meu do Instituto de Letras, escritor, pessoa de alto nível moral e intelectual, foi barbaramente espancado por um assaltante em Lisboa, tendo inclusive dois braços fraturados, traumatismo craneano, 4 dias em coma, e seu estado causa preocupação na primeira página dos jornais e começa a se transformar num incidente internacional. Mas, afora isso, o que eu gostaria mesmo é que você , que tem sido um amigo meu solidário, fosse visitá-lo no hospital e me desse alguma notícia. É só visitá-lo mesmo. Ele está coberto por seguro de saúde. Ele está no Hospital São Lázaro, tel: 887-3131, serviço 9, sala 1, cama 3. Te agradeço muito. Desculpe, tenho muitos amigos em Lisboa mas nessa hora só pensei em ti, tchê. Abracíssimo.
Meses depois deste episódio, estava passando uma tarde em Itapuã, decidi estender a caminhada pela praia até à sua casa. Como sempre, ele foi muito receptivo. Em seu gabinete, me fez uma revelação. Ao consultar os búzios, disse que Omolu era meu orixá. Recomendou-me um trabalho de limpeza espiritual com pipoca para expurgar energias negativas. Mas como naquele instante eu me considerava cético em relação a isso, não segui suas orientações. Anos depois, sentindo esta necessidade, passei a ir na festa de São Lázaro em janeiro para minha lavagem anual.
Agora, relendo o original do fax, entregue a mim no dia daquela visita, me atentei para um detalhe. O hospital onde fui primeiramente internado foi São Lázaro, que no paralelismo sincrético com o candomblé é Omolu. Dia 17 de dezembro é o dia consagrado ao santo. Dia de meu nascimento.
O mestre Ildásio Tavares, Oba de Xangô do Ilê Axé Opô Afonjá, sabia das coisas.
Atotô!

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Bienal do Livro 2010

Reitor da Uneb, Lourisvaldo Valentim

Diretora da EDUNEB, Nadija Nunes

Apresentação dos livros pelos autores
Desembarquei em São Paulo em plena sexta-feira, 13 de agosto, para o lançamento de meu livro "Acontece que eu sou baiano: identidade e memória cultural no cancioneiro de Dorival Caymmi" na Bienal do Livro 2010, no stand da ABEU (Associação Brasileira de Editoras Universitárias). A convite da EDUNEB, leia-se Nadja Nunes, diretora do selo, e na companhia de outros professores da UNEB, falamos para um público de editores e pesquisadores sobre nossos livros.

Dos 15 exemplares de "Acontece que eu sou baiano" enviados para a Bienal, 11 foram vendidos no primeiro dia e antes mesmo do lançamento. Detalhe: eu não autografei nenhum, mas fiquei feliz pelo fato de terem adquirido quase todos. Espero que com o término da feira hoje, eu tenha fechado com zero no estoque.

Aliás, a edição está praticamente esgotada, frente ao número de 300 exemplares que a FAPESB, financiadora do projeto, aprovou. 100 livros foram doados às bibliotecas da UNEB, mais 100 ficam com a editora e a outra centena é do autor.

Os exemplares da editora serão vendidos à Fundação Pedro Calmon, que selecionou o título para o projeto Mais Cultura, que distribui livros de autores baianos nas bibliotecas públicas.

Dessa forma, só resta a minha cota para o lançamento em Salvador, o que é pouco, pois metade desses 100 exemplares é para divulgação e distribuição gratuita a pessoas e instituições que colaboraram para a conclusão da obra. Assim, penso eu, a editora fará uma nova edição revisada para os lançamentos futuros. Isso para um autor estreante é uma vitória, mais ainda em se tratando de um ensaio. Tenho certeza que o tema ajuda muito no interesse das pessoas, pois quando se fala em Caymmi, as pessoas sorriem, porque de fato a música caymmiana é alegre e festiva, e sua própria imagem é um convite à felicidade.

Aliás, desde quando comecei a pesquisar sua obra, a felicidade também tem me visitado. Muito do que tenho alcançado na vida pessoal e profissional nos últimos 10 anos deve-se ao compromisso e à seriedade com assino minhas pesquisas sobre Caymmi.

Sobre Caymmi, só ressalto o que é próprio de si mesmo, ou seja, quando analiso suas canções, traço o que ele mesmo apreendeu de sua experiência como baiano, nascido e criado em uma Bahia particular e afetiva, não aquela imposta ou inventada por outros.

É sua memória o que me interessa e isso já é uma tarefa difícil de interpretar, porque somente ele a conheceu bem, e o pouco que ele nos revela, está em suas canções. Basta ouvi-las. E deixem que elas mesmas falem por si.

domingo, 14 de março de 2010

O Colegial - conto




Penso em você. O que? E continuou a andar. Não acreditou no que ouviu, mas também não quis explicação. A pergunta foi para se esquivar. Sim, penso em você. Não o conheço, como pode pensar em mim? E precisa te conhecer pra ser admirado? Sempre quando vou à padaria, no final da tarde, ele passa por mim. Umas vezes, me olha fixamente. Outras, desvia o olhar, mas continua olhando pelo canto do olho. É impressão minha ou quando estamos em lados opostos da rua ele atravessa para o meu lado? Ei, cara, vou ter que adiantar, não vou ficar pro jogo. Todo dia é isso. Amanhã eu fico. Amanhã, amanhã... vou botar outro no seu lugar. É que tenho que estudar, velho, perdi em três matérias. Suas pernas longas, grossas, de poucos pêlos, estão sempre à mostra por conta dos shorts azul, preto, ontem estava com o que mais gosto, branco com aberturas laterais, bem curto. O peitoral é de quem está malhando, os braços também. Os ombros bem alinhados. O pescoço, rijo. Suas feições são já de adulto, mas o olhar é de menino, curioso e traquina. Pelugens cheias de falhas estão nascendo nas laterais do rosto, no queixo, mas quem disse que ele pensa em tirar? Nem eu quero, essa hombridade juvenil me encanta, nele especialmente. E a voz é forte. Ouvi agora, quando falou “como pode pensar em mim?” Como pode? No banheiro, depois de chegar em casa, ele repetiu aquela frase enquanto se ensaboava, mão nas axilas, no peito, na virilha... Nunca o vi com o uniforme, mas deve estudar no Salesiano, já que por duas vezes acompanhava outros rapazes deste colégio. Ele é o meu colegial. De escola pública ou particular, pouco importa. Está interessado em aprender muitas coisas e eu em ensinar. E aprender também. Não parece ser tão ingênuo assim. Se tiver 18 anos, para mim, que tenho 30, não chega a ser desproporcional. Sim, ele tem 18. Perguntei numa segunda tentativa de puxar uma conversa. Desta vez, parou um pouco e com certa irritação pediu que não mais falasse com ele. Tenho namorada e não curto essa, falou? Nesse dia, jogou uma partida com o colega que insistia há vários dias. Estava suado, seu cabelo molhado, sua blusa colada à barriga, seu cheiro viril. Até que enfim, hein, acho que tem outra coisa aí? Aí, o quê? Ah, essa de você não querer mais jogar com a gente e fugir sempre neste horário... Ô, não é você que diz sempre “amanhã, amanhã”? Tá desconfiado de quê? Nada, cara, só falei que... Já disse, tô estudando muito. Antes era você quem insistia, até esquecia que tinha algum trabalho de aula para fazer. Pois é, agora, tomei responsabilidade, minha mãe disse que do jeito que estava não dava mais para aceitar. Fique um pouco, vamos tomar um caldo de cana na barraca. Tenho que ir, cara, já está anoitecendo. Já vai estudar? Não, vou descansar. Acelerou o passo e ainda conseguiu me ver dobrando a esquina com o saco de pão quentinho. Adiantou-se, passou por mim e seguiu sem olhar para trás. Tentei acompanhá-lo e quando estava bem perto disse: Ei, espere. Virou-se repentinamente e estendeu o braço para me empurrar, teria sido isso mesmo ou um gesto involutário, de insegurança e desejo juntos? Defendi-me com o saco, que caiu no chão, espalhando alguns pães. Desculpe, cara, não foi minha intenção. Agachou-se e recolheu os pães. Não, estes não servem mais. Fechou o saco e me deu. Desculpe. E saiu. Envergonhado. Eu sorri, perdoei. Em casa, tomou vitamina de banana e comeu pão com queijo. Lembrou do cara do pão quentinho que dá em cima dele todo dia no final da tarde. O colega de futebol liga. Festa amanhã. Vou. Às 9, passo aí. Falou. Arrumado, espera no playground do edíficio. Que festa é essa? De uns caras que eu conheço, gente do bem. Que tipo? Dá de tudo lá. Drogas? Também. Tô fora. Meninas, meninos, adultos, coroas... Pararam antes num posto de gasolina, beberam energéticos. Veio o papo. Danilo. Danilo é o nome dele. O que é? Antes de chegar lá quero te falar uma coisa. Sim. Velho, fique na sua, calado, não fale pra ninguém. Qual é o segredo? É que tô curtindo um cara bacana, de 28 anos, gay, figura nota 10. O quê? Repita aí. É isso mesmo. Você é viado? Não é isso. Sou bi-transitivo, tipo verbo com dois complementos. Roger, isso é grave. O mundo não vai acabar não, Danilo. Não acredito. E tem mais: sempre achei você interessante, mas... Mas, o quê? Mas sei que não é sua curtição. Ainda bem que pensa assim. É isso. E é pra lá que nós vamos? Pra casa de seu namoradinho? É. Por que não disse antes? Você não corre perigo, ninguém vai te aborrecer, estarei por perto. Quero ver. A surpresa. Eu estava lá. Amicíssimo do aniversariante, quase irmão de sangue, era presença mais do que especial. E Roger chega com Danilo. Seus olhos se abriram e assim ficaram congelados e assim mostraram que eu não era real. Inimaginável. Eu, que estava bebendo um gole de champanha, engasguei. Danilo sacou na hora. Não houve disfarces. Impactante mesmo, ainda mais que fui eu quem os recebi. Na sala de visitas, tinha poucas pessoas, a maioria estava no jardim e ao redor da piscina. Se conhecem? Não!, disse ele rápido. Sim, respondi apertando sua mão, mas não sei seu nome. Trêmula a mão, gelada também. Roger me olhou com sorriso irônico. Danilo. Guido. Neste instante, aparece o anfitrião. Paulo. Demorou, Roger. Trouxe aquele colega que te disse. Oi, Danilo. Cumprimento frio. O que foi que aconteceu com ele? Pergunte a Guido. Não tenho nada a dizer. Será? Roger, vou embora. Não, cara, relaxe. Dei um lenço de papel para ele. Suava nervoso. Não enxugou, amassou na mão. Sente aí, rapaz, tome um refrigerante, aqui menor não bebe álcool. Tenho 18 anos. Liberado então. Roger, cuide dele, Guido, venha cá. Contei tudo a Paulo. Ele é lindo, amigo, mas pelo que Roger me disse ele não curte. Respeito sua posição, mas não resisto em investir toda vez que o vejo. Esse é o momento de vocês conversarem. Roger pode ajudar. Esse cara me segue todo dia quando saio do colégio, Roger. Mas ele é do bem, discreto, inteligente e educado, mora ali, no Jardim Baiano, é professor universitário. Sim, isso tudo não me diz nada. Tudo bem, mas é uma referência boa dele e está sozinho. Você tá me jogando pra ele? Não sei, depende de você. Velho, não sou gay, não! Tem certeza? Tenho. Não achei firmeza nesse “tenho”. Tá me estranhando, é? Sabe de uma coisa, cara, é coisa de amigo o que vou falar. Diz. Acho que você tem vontade e curiosidade de transar com outro homem, e digo mais, por diversas vezes já flagrei você secando Robson do 3° ano vespertino, aquele moreno que faz natação... Qualé, Roger! Ele é interessante, não é? Sei lá! Sabe, sim, se lembra daquela vez quando ele foi para o vestuário tomar banho depois do jogo? Não sei. Você foi o único a acompanhá-lo. E daí? Daí que, demorou um pouco e todo mundo foi embora, só eu na quadra, depois entrei no vestuário sem ninguém perceber e vi você se masturbando na sua cabine, olhando pro cara no chuveiro. O quê? E não foi? Seu sacana! Relaxe, relaxe, ninguém vai saber. Eu me aproximo e pergunto se os dois vão beber algo. Faça companhia aqui a ele, Guido, que vou pegar. Ei, também vou, disse o rapaz. Fica, insisti. Ele se acomodou no canto do sofá. Que é que você quer comigo? Sempre gostei de você, mas nunca tive jeito de me aproximar. Agora não tem jeito, né? E sorriu para mim. Virou os olhos em seguida e começou a mexer nervosamente os pés. Se acalme, Danilo. Não deveria ter vindo. Mas você está aqui e não vai sair enquanto não conversar comigo. Altas horas, quase amanhecendo e nós, sozinhos, deitados nas cadeiras de sol ao lado da piscina. Quase todos os convidados já tinham ido embora, só restando mesmo Roger, Paulo e três outros casais gays. Conversamos sobre nossos sonhos e fantasias, decepções e experiências, desejos e tesões. Ele já tinha parado de beber antes de ficar bêbado, mesmo assim, pareceu mais desinibido, a ponto de me puxar, pela mão, da sala para a cobertura. Ela é macia, mas grande e forte como de um titã. Pensei em não forçar a barra. Agora que eu já lhe disse tudo o que pensava a seu respeito, deixei-o decidir. Posso continuar pensando em você? Sua resposta foi um sorriso mínimo, mas que entendi como expressão mesma de sua timidez. Domingo se passou e a ansiedade de, na segunda, à tarde, naquela hora em que é mais gostoso comprar e comer pão quentinho, eu ver meu colegial passar. Será que ele vai me cumprimentar? Tudo bem, como foi o fim-de-semana? Falei com o atendente da padaria, Vou querer seis francês. Paguei. O próximo. Um sonho. Estaquei com meu coração palpitando a mil. Aquela voz... Olhei para trás. Um não, dois, você quer um Guido? Não respondi, emudeci. Fiquei sem chão. Sem ar. Sem argumentos para dizer não. Pães quentinhos no saco. Saímos da padaria comendo sonhos açucarados com recheio de goiabada. Tudo doce. Tudo um sonho mesmo. Fez o que ontem? Dormi até de tarde, depois fui pra casa de minha namorada, e você? Fiquei lendo, assistindo a alguns documentários na tevê, internet... Limpe o canto da boca, está sujo. E me deu seu guardanapo. Obrigado. Desculpe se naquela noite eu fui grosso com você, entenda, é difícil para eu aceitar isso. Isso o quê? Você. Eu? Sim, você e... eu. Eu não lhe disse, mas eu não ficava até de noite na quadra com os colegas, depois das aulas, porque queria saber quem era você... Sério? Sério, achei muita coragem encarar outro homem e dizer “penso em você”, não teria tanta ousadia... Demorou para que eu decidisse fazer isso. Foi a primeira vez que eu me deparei com isso. Você gostou? Não quis aceitar que gostei, daí minha confusão. O que você acha de mim? Um broder sério, plantado, faz meu tipo. Rimos do avanço que a conversa estava tomando. Chegamos à esquina da minha rua. Aceita um café? Não tomo. Faço então um chocolate. Será que devo aceitar? Vamos terminar de comer esse sonho lá em casa. Não sei, não quero ir para... Para, o quê? Só o chocolate, falou? Não respondi. Numa igreja perto, os sinos anunciavam a hora da Ave Maria. O céu de verão ainda estava claro, raios de sol entravam suavemente pela janela da minha sala. E pelo quarto também. Mas quando deitamos na cama, só a brisa quente é que vinha de fora. Os mesmos sinos horas depois nos acordaram de um sonho quase eterno. E o telefone celular dele também. Tenho de ir pra casa, amanhã em frente à padaria a gente se vê. E eu voltei pra cama. No lado, onde ele dormia minutos antes, ainda estava quente como um pãozinho saído do forno...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Pensemos no Haiti: post scriptum

Nos EUA, o pastor evangélico Pat Robertson em uma declaração infeliz e preconceituosa atribui o terremoto a um castigo divino pelo pacto com o diabo feito em 1804 para o país tornar-se independente. "Eles estavam sob o domínio francês. Você sabe, Napoleão 3º, ou o que for. Então eles se juntaram e selaram um pacto com o Diabo. Disseram: 'Vamos servi-lo se você nos tornar livres dos franceses. É uma história verdadeira. Então, o Diabo disse: ok, negócio fechado." Estúpido e inconsequente.

Outra fala desagradável foi a de Gerge Samuel Antoine, cônsul do Haiti no Brasil que, sem saber que estava sendo gravado, confessou a uma repórter do SBT que "a desgraça de lá está sendo uma boa pra gente aqui, fica conhecido. Acho que de, tanto mexer com macumba, não sei o que é aquilo... O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano lá tá f...".

O presidente Barack Obama por meio de seus assessores disse que o pensamento do pastor extremista não corresponde ao do governo e que dará apoio total ao Haiti. O cônsul, que é católico, reafirmou à repórter a sua opinião e disse ser a pessoa mais indicada ao cargo. Pasmem! Esse diplomata merece perder suas credenciais no Brasil.

A intolerância em uma situação como essa não vai ajudar as vítimas nem ressuscitar os mortos. A fala dos dois bestializados senhores só demonstra que o racismo, especialmente contra o negro e suas africanidades, ainda não foi expurgado das mentes das pessoas e que as força a cometer desatinos perigosos. Será que esse Deus também é racista? Se assim for, é pior do que pintam do Diabo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Pensemos no Haiti




Haiti: desespero, caos e sofrimento


A primeira notícia que li nesta manhã de quarta-feira foi a tragédia no Haiti. Estou consternado.

O terromoto que se alastrou pelo país, completa o caos político, econômico e social em que ele se viu engolfado nos últimos anos. O Haiti povoa meu imaginário como o lugar da resistência anti-escravista e anti-colonial. Aprendi ainda jovem nas aulas de História que foi lá, no século XIX, mais precisamente em 1804, depois de doze anos de revolução, que Toussaint Louverture declarou a independência do Haiti, a primeira nação negra livre das Américas.

A insurreição começou ainda século no XVIII, em 1791, em uma cerimônia de vodu, na localidade de Bwa Kayiman conduzida por Cécile Fatiman, uma manbo, mãe-de-santo, e duzentos fiéis. Neste evento, os espíritos ancestrais convocaram os negros para uma experiência libertária contra opressão escrava jamais vista até então no continente americano e que se transformou em referência para o afrocentrismo e outros movimentos negro-africanos.

Essa relação entre religiosidade e resistência que resultou na vitória dos negros está presente nos valores nacionais haitianos, como no hino nacional, que evoca os ancestrais a ajudar na condução e no fortalecimento da nação.

O culto do vodu foi o que amalgamou todos os escravos na luta pela liberdade, fraternidade e igualdade, valores em voga na época inspirados na Revolução Francesa e que estimularam os colonizados a fazerem valer o que aprendiam com os próprios franceses.

Uma das matérias do Folha Online que li, reproduziu o depoimento do antropólogo brasileiro Omar Ribeiro Thomaz, que tive a oportunidade de conhecer e participar de um curso seu no CEAO sobre Haiti e Moçambique em 2003. Ele está fazendo pesquisa em Porto Príncipe com estudantes universitários da Unicamp. A reação dos haitianos diante da tragédia, segundo o professor, é entoar cânticos religiosos. Independentemente para quais divindades, sejam cristãs ou voduístas, os haitianos continuam pedindo aos espíritos que os unam novamente para salvar o país do caos.

Ainda não se tem dados reais, mas estimativas contabilizam 100 mil mortos, frente à magnitude do terremoto. E o Brasil, que tem assumido com a ONU uma missão de paz no país, tem o desafio agora de mostrar ao mundo a que foi de fato para o Haiti. Malgrado a morte de militares brasileiros em atividade e de Zilda Arns, da Pastoral da Criança, órgão da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, a hora é de pensarmos no Haiti e rezarmos pelo Haiti, como vaticinou a canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Pensarmos no Haiti pelo exemplo que nos deram os negros haitianos de resistência contra a escravidão, contra a opressão, contra o colonialismo, contra as ditaduras. Rezarmos pelo Haiti para que esse povo negro renasça cada vez mais resistente. Esta catástrofe só piora a vida dos haitianos, o Haiti terá mais dificuldades de sair do primeiro lugar de país mais pobre das Américas. A ajuda internacional deverá ser contínua até a sua reconstrução terminar, seja ela social ou de infra-estrutura.

Recentemente tenho ouvido muito o cantor haitiano BélO. Adquiri seu cd "Reférence" no dia de seu show no Festival de Músicas Mestiças, evento comentado no último post. Em uma das canções mais belas do álbum, o cantor e compositor, que também é voluntário em projetos sociais da ONU, fala em recuperar o Haiti dos ferimentos depois de muito tempo de espoliação e subdesenvolvimento.

"Ayti leve" é cantada em crioulo haitiano, de difícil tradução, mas a mensagem é compreensível, porque no encarte BélO, em francês, explica que a canção é um chamamento para que todos assumam a responsabilidade de redenção do país. Tomara que esta música se junte ao hino, aos cânticos religiosos de santos e vodus para salvar o país. O Haiti não é aqui, mas está tão perto de nossas desigualdades, de nossas diásporas, de nossas lutas que é difícil não sermos solidários aos nossos irmãos de lá.