segunda-feira, 28 de maio de 2012

Abará da Sorte





 "Todo mundo gosta de abará/ Todo mundo gosta de abará/ Ninguém quer saber o trabalho que dá/ Ninguém quer saber o trabalho que dá". Esses versos são da canção A preta do acarajé, de Dorival Caymmi. 

Eu evoco essa letra, porque hoje eu tive uma experiência baiana singular. Digo, singular, porque nunca vivenciei o momento sublime de uma baiana de acarajé montando seu tabuleiro. Mais: de ajudar a baiana a montar sua guia.

Às segundas ou terças-feiras, costumo comer o abará de uma baiana, cujo ponto fica na Rua do Tabuão, ao lado do Bar do Neuzão, no Pelourinho. O quitute é para mim o melhor abará da Bahia, porque, diferentemente do que se vende na maioria dos tabuleiros, ele é feito com feijão fradinho mesmo, bem ralado e misturado a camarão e azeite de dendê de fina escolha. Tudo cheirando a África, a boca cheia d'água com suas delícias.   

Ao chegar, vi a baiana em pé e de braços cruzados, com seu panelão de abará e outras sacolas ao lado. Perguntei, ainda dentro do carro, se haveria abará. Ela, muito simpática, disse que aguardava alguém trazer o tabuleiro. Ainda me perguntou se o abará seria para "levar" ou para comer no local. Respondi que não teria pressa e que aguardaria ela arrumar a banca.

Depois de 10 minutos de expectativa, um homem trouxe o tabuleiro, e eu, já fora do carro, ajudei a levantar o panelão pesado para colocar sobre um banquinho. Esperava ansioso o momento de comer o abará quentinho, o primeiro do dia, mas o tempo da baiana não era igual o meu. E então respeitei.

Como eu disse que não tinha pressa, ela entendeu e preciosa e lentamente arrumou seu tabuleiro. Toalhas alvas e perfumadas com alfazema, panelas de alumínio brilhando, vasilhames plásticos e talheres limpos, tudo isso compunha um quadro de beleza gastronômica a qual eu não tinha ainda presenciado. Ainda ajudei a tirar o saco plástico que embalava a panela do camarão, que foi aproveitado para forrar a lata de lixo, onde seriam jogadas as embalagens de papel e as palhas do abará.

Outras pessoas chegaram e foram tomando seus postos na fila. A baiana fechou um pouco a cara quando um  homem e uma mulher, conversando animadamente, empatavam seu livre trânsito ao redor do tabuleiro, já nos últimos segundos de preparação para começar a vender. Pensei que diante dessa concentração de gente, afoita como eu para comer o abará, ela me esqueceria. Mas antes que alguém pedisse o seu, ela apontou para mim, soberana de seu ofício, e disse: "Psiu, você é que é o primeiro. Tem dinheiro contado?". Claro que sim. R$8,00 em notas de R$2,00.

Decidi por comer um abará na hora, outro, para "levar". Hum! O primeiro abará vendido do dia. Aquela delícia regada a uma pimenta-da-costa,  feita há pouco tempo, com camarões médios, bem refogados, tinha que ser para alguém faminto, e ao mesmo tempo, realizado, pelas boas ações que fez e pelas boas novas que recebeu.

O abará da sorte, nessa segunda-feira de Omolu, não era para qualquer um! 

Era para mim e para meus irmãos.    

terça-feira, 1 de maio de 2012

Raulzito, o Cara








Foi um prazer assistir com José Raimundo, o Pinguim, ao documentário "Raul Seixas: o início, o fim e meio", de Walter Carvalho, por um motivo muito especial.

Como estou envolvido na co-autoria do livro de Pinguim, um dos mais antigos profissionais da televisão baiana, achei que seria positivo reavivar a sua memória de dois momentos de contato com Raul Seixas.

O primeiro, quando ambos foram colegas de turma do Colégio Maristas, em Salvador, na década de 60, sendo, portanto, contemporâneos de um período de efervescência musical que tinha o rock and roll de Elvis Presley como a sensação da juventude de classe média.

O segundo, quando ambos se reencontraram no final dos anos 70, no Rio de Janeiro, e Raul, numa fase de pop star e com influência na mídia da época indicou Pinguim à Tv Globo para trabalhar na produção da emissora.

Esses dois episódios estão narrados no livro "Minha Vida é Flash" de José Raimundo, que completa em 2012, 35 anos de carreira na televisão como produtor e diretor, com experiência na Tv Itapoan e Tv Aratu.

Além dessa satisfação de assistir ao filme com Pinguim, uma outra diz respeito ao próprio documentário, especialmente sobre Raul Seixas, de quem, embora conhecesse os seus maiores sucessos, não conhecia bem sua trajetória artística e pessoal.

Walter Carvalho apresenta ao espectador, fã ou interessado pela vida e obra de Raulzito, um cine-retrato equilibrado e abrangente. Tentando contar a história numa linha de tempo sequencial, mas sem perder o próprio mote transgressor do título, inspirado em um verso de "Gita", o diretor nos fisga pela curiosidade de conhecer os fios que compõem a filigrana da personagem/personalidade do cantor e compositor baiano.

Com imagens de arquivos pessoais e de televisão, além de depoimentos de amigos, familiares, jornalistas, músicos, ex-esposas e companheiras, o filme não traz muitas revelações, mas reacende algumas polêmicas do convívio entre esses entrevistados e Raul, como foi com um de seus parceiros mais conhecidos, Paulo Coelho.

Aliás, uma das cenas mais emblemáticas desta relação tempestuosa e criativa, é simbolizada por uma mosca que incomodava o escritor durante a entrevista em sua residência em Genebra. Enquanto falava sobre certo clima de disputa e inveja entre os dois, o inseto sobrevoava a sala branca e asséptica, entrando no enquadramento e posando no rosto e braço de Paulo. "Engraçado, em Genebra não tem mosca. É o Raul, mas eu não vou matar". Mas logo após, dá um tapa sorrateiro na mosca. E ela voou, persistente.

Outra polêmica é a parceria, dessa vez no palco, de Raul com Marcelo Nova, de Camisa de Vênus. Quando o cantor estava numa fase quase final de carreira, devido ao agravamento da doença no fígado, Marcelo o convidou para uma turnê da banda como participação especial, mas o retorno de Raul foi um sucesso, dando à banda uma visibilidade e profissionalizando-a.

Familiares e amigos dividem as opiniões sobre as verdadeiras intenções de Marcelo Nova. Ele se defende, justificando que, como fã e discípulo de Raul, era uma retribuição pelo que o cantor representava para sua formação musical. Segundo ele, jamais usaria Raul para ganhar fama.

A trilha sonora é Raul, Raul e Raul, mesmo quando rola um incidental de Elvis Presley é Raul, cover do rocker norte-americano, que vemos. Minha memória mais antiga de Raul é da sua interpretação de "O carimbador maluco" ("Plunct, plact, zuum"), em um especial infantil da Rede Globo em 1983. Aparentemente ingênua, a letra faz uma crítica à ditadura, já que o carimbador era a figura mais emblemática à censura no regime, autorizando ou não a divulgação dos produtos culturais e artísticos. Só recentemente, numa leitura mais refinada, percebi o dedo crítico de Raulzito nessa canção.


O filme tem seguido uma trajetória de  sucesso em todos as salas onde é exibido. E vale a pena mesmo assistir e entender o porquê, sem é claro tomá-lo como uma cinebiografia definitiva de Raul, o quanto este cara foi seminal para o rock nacional, e mais, como sua performance musical ainda contagia as novas gerações de roqueiros ou mesmo de novos ouvintes e sonhadores de uma sociedade alternativa.


domingo, 25 de março de 2012

"Pina", de Wim Wenders, o corpo em evidência




Tinha que ser Wim Wenders. Primeiramente, pelo fato de sua obra ser uma das mais criativas e coerentes que eu já vi ("Paris, Texas; "Asas do Desejo", "O céu de Lisboa", "Buena Vista Social Club"); e em seguida, porque sua criatividade e coerência fílmicas concorreram para que "Pina" se tornasse uma experiência audiovisual singular.

Cinema, música e dança, tudo isso em 3D e som digital, além é claro da genialidade artística de Pina Bausch (que morreu em 2009, antes do início das filmagens) nos dão a certeza de que nossos sentidos precisam passar por uma limpeza das impurezas que nos invadem corpo adentro.

É hora de sentir o corpo, tomar posse dele, pois estão nos roubando toda a sua magnitude sensorial. A própria Pina Bausch falava "dance, dance, do contrário estaremos perdidos".

Dançar é sentir-se pleno dono de seu corpo. E Wenders, através das coreografias de Pina e performatizadas pelos dançarinos de sua companhia, realiza mais do que um filme do ponto de vista técnico e comercial, mas também um mapeamento simbólico dos espaços e lugares que o nosso corpo pode alcançar.

É certo que ele alcança muito mais do que supomos, até o que supunha a própria Pina. Não é à toa que por isso ela deixava que seus dançarinos cascavilhassem o que poderiam dar de mais pessoal e intransferível para o espetáculo.

"Dance, dance...", repetia sempre ela. Os depoimentos deles (cada um em sua língua materna, há inclusive uma brasileira na companhia) sobre a vivência com a coreógrafa são mudos, ou seja, em off sobre a imagem em plano fechado de seus rostos, mas que se materializam pelos seus corpos em movimentos, seja no palco de um teatro, onde quatro dos espetáculos criados por Pina são representados, como o deslumbrante "A Sagração da Primavera", seja numa rua, estação de trem, praça, em performances solo ou em dupla.

A trilha sonora não somente acompanha a imagem, mas integra a performance visual e gestual dos dançarinos. O diretor é sensível a isso em seus filmes. Nada fica over ou aquém da medida que as linguagens possibilitam, e isso pode ser visto no solo de um deles sob a voz de Caetano Veloso, cantando "O leãozinho".

Não há tradução literal para o alemão da canção em português. O dançarino mimetiza de outra forma a letra que nos é tão conhecida. Wenders desautomatiza nossa interpretação de modo tal que passamos a aceitar, pela estética coreográfica inusitada, esse novo significado da música.

"Pina" é a minha estréia a uma leitura mais atenciosa sobre a dança contemporânea. A curiosidade de conhecer Pina Bausch foi realizada, que neste filme não é explorado aquele padrão clássico de uma cinebiografia, cheia de entrevistados e locução. Se ela não estava viva para apresentar sua própria criação, a protagonizou nos corpos de seus dançarinos, extensões mesmos do seu próprio.

Aliás, o nosso corpo já não sai do cinema o mesmo.


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Rota do Açúcar - Pernambuco - Última Jornada


Engenho Massangana - Vista Geral


Engenho Massangana - Capela de São Mateus


Engenho Massangana - Casa-Grande



Pé na estrada para a última jornada da Rota do Açúcar.

Em janeiro de 2011, programei viajar para Alagoas, Pernambuco e Paraíba, a fim de fazer os engenhos desses três estados, mas refiz o roteiro e só visitei as cidades dos dois primeiros Estados.

As cidades da Paraíba, onde estão localizados os engenhos, ficam numa região mais afastada dos engenhos de Pernambuco, por isso decidi naquela época só visitar João Pessoa para reencontrar amigos.

Só voltaria à Paraíba em 2012 para conhecer os engenhos de Sapé, Areia, Pilar e Alagoa Grande. E assim o fiz, desta vez acompanhado de Márcio, como co-piloto.

Saímos dia 27, com parada em Maceió por uma noite. Na tarde seguinte, seguimos para Recife, onde ficamos por dois dias, mas antes de chegarmos à cidade, passamos pelo Engenho Massangana, onde Joaquim Nabuco morou parte de sua infância.

Foi uma visita não-programada, porque minha intenção era só os engenhos da Paraíba. Ano passado, o Massangana estava na lista, mas como estava fechado para reforma, decidi não explorá-lo no documentário, pois decidi só filmar aqueles que eu visitasse ou que poderia visitar durante a pré-produção.

Para a confecção do roteiro, eu preciso ver o engenho. Em se tratando de um filme "on the road", é possível que outros engenhos não-listados entrem no projeto, decorrentes mesmos de indicações ou sugestões de pessoas dessas comunidades ou de pesquisadores.

Fomos recebidos no Engenho Massangana pelo responsável ao atendimento de visitantes, o muito educado e bem-informado Alexandre Souza, morador da comunidade ao lado do engenho, e próximo ao Porto de Suape, o maior complexo portuário do Estado e do Nordeste, na cidade de Cabo de Santo Agostinho.

O complexo arquitetônico do engenho é composto de casa-grande e capela, como as construções mais antigas da área. Não há vestígios da moita e da senzala, nem do cemitério que Joaquim Nabuco cita em seu livro de memórias "Minha Formação".

Visitamos todos os cômodos da casa-grande, que comparados aos outros visitados em Pernambuco ano passado parece ser menos portentoso, mas que segue um padrão estrutural dessas habitações da Zona da Mata pernambucana norte ou sul.

A riqueza do senhor de engenho e família poderia ser vislumbrada boa parte no interior delas, com suas louças importadas ou móveis de madeiras nobres. No Massangana, somente uma mesa de ferro foi preservada. O restante dos móveis foi de doações de colecionadores ou comprados pela Fundação Joaquim Nabuco, do Governo Federal, para reconstituir a ambiência senhorial.

Cenas do filme "Menino de Engenho" (1965), de Walter Lima Jr., baseado na obra homônima de José Lins do Rego, foram gravadas no Massangana, e a moenda que compunha o cenário do filme "Abril Despedaçado", foi doada por Walter Salles ao museu.

Foram 40 minutos imersos na memória visual de Joaquim Nabuco sobre o engenho, materializada em seus escritos e reproduzidos em painéis e banneres nas partes do engenho ainda possível de identificar, como a capela, o quarto onde dormia, a cozinha.

Joaquim Nabuco foi um dos maiores pensadores sociais e críticos contra a escravidão no Brasil. Palmilhou com sua verve entre o ensaio e a prosa literária um ideal de liberdade que, mesmo depois de ter sido alcançada pelos escravos, ainda assim não correspondeu à seu anseio de ver os negros sem as amarras do preconceito e da exclusão social.

É emblemático o texto "A Escravidão", escrito em 1870, aos 21 anos, quando era estudante de Direito em Recife. Não tão conhecido quanto "O Abolicionismo" e "Minha Formação", talvez porque não foi publicado em vida, este ensaio foi concebido para ter três partes: "O Crime", A História do Crime" e a "Reparação do Crime". Somente as duas primeiras foram concluídas. A terceira nem chegou a ser iniciada.

Mais de um século depois, estamos discutindo algo tão óbvio o que Nabuco almejava com uma antecipação e segurança ideológica ímpar: a reparação pelo crime da escravidão que massacrou africanos e afro-brasileiros, e que ainda paira no cotidiano e no privado de nossas relações sociais atuais.

sábado, 22 de outubro de 2011

Ser-tão Baiano



“Ser-tão baiano: o lugar da sertanidade na configuração da identidade baiana” (EDUFBA, 2011), de Cláudia Pereira Vasconcelos, é um estudo primoroso e envolvente sobre a baianidade, ou como o próprio título indica, sobre uma sertanidade baiana.

Tive acesso a seu texto no I Simpósio Internacional de Baianaidade (SINBaianidade), ocorrido neste mês em Seabra, Campus XXIII-UNEB, e tão logo o adquiri saí do mar caymmiano, uma das imagens mais influentes de uma “baianidade essencial”, para o sertão.

A começar pelas referências teóricas e temáticas, o texto de Cláudia Vasconcelos dialoga com o meu em “Acontece que eu sou baiano: identidade e memória cultural no cancioneiro de Dorival Caymmi” (EDUNEB, 2009).

Trilhamos percursos diferentes, tanto pessoais quanto acadêmicos, mas desaguamos na mesma seara. Ela, de origem baiano-sertaneja, interessada no não-lugar do sertão no discurso da baianidade; eu, de origem baiano-soteropolitana, preocupado com a centralidade desse discurso na identificação dos baianos a partir de Salvador.

Ao escolher Dorival Caymmi para discutir essa baianidade centralizadora, inclusive contradizendo o papel dado a ele como um dos responsáveis por esta identidade, o fiz porque ao mesmo tempo me sentia confortável e incomodado, sem com isso, é claro, sofrer crises de identidade.

Cláudia Vasconcelos não trabalhou especificamente um personagem, mas ao fazer um percurso pelos variados elementos simbólicos que foram inventados e construídos da baianidade, cita Dorival Caymmi. E é impossível não fugir dele, mesmo que se imagine o contrário, porque a sua persona, assim como sua obra, são indissociáveis da própria “ideia de Bahia”.

Não é somente esse ponto que me interessa em seu texto, mas também a sua discussão sobre as linhas de tensão que muitos baianocêntricos tentam ofuscar ou ocultar por detrás de uma suposta baianidade harmoniosa. Conflitos sociais, culturais, raciais pululam desta máscara que nos forçam a contemplar como a verdade de nós mesmos.

Escrito com uma linguagem fluida e pontual, a autora articula experiências intra e extramuros universitários para nos dar conta de sua inquietação acerca do tema. O seu percurso teórico-analítico começa com a própria “ideia de sertão” na constituição da brasilidade, recortando os conceitos do nacional, para o regional até chegar ao local, e os inverte em seguida para entender (e nós também) esse ir e vir das ideologias constitutivas sobre a identidade baiana.

Essa narrativa nos dá a compreensão dos vetores discursivos que fazem parte dessa trama, tecida e alinhavada, da invenção das identidades relativas às sociedades. Transitando com competência nas teorias de Hommi Bhabha, Stuart Hall e Pierre Bordieu, além de estudiosos brasileiros, como Milton Moura, Durval Muniz de Albuquerque Jr e Nísia Trindade Lima, a autora nos refina essas abordagens para nos levar a uma conclusão possível: a de que a sertanidade não tem espaço no texto da baianidade, devido ao discurso de poder reiteradamente impositivo e invasivo durante a construção desse território simbólico e geográfico chamado Bahia, a partir de Salvador e do Recôncavo.

E há uma saída para esta hegemonia? Se a profecia de Conselheiro de que “o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão” acontecesse como possibilidade de releitura da baianidade e assim deslocasse o centro de sua irradiação, a sertanidade não seria também questionada como centralizadora?

Em 2005, publiquei um ensaio sobre a representação da “ideia de sertão” que Euclides da Cunha criou em “Os Sertões”, e que posteriormente viraria uma sentença identitária do “ser nordestino”, quando esta região, anteriormente conhecida com Norte, passou a ser Nordeste.

A máxima euclidiana de que “o sertanejo é antes de tudo um forte” é voz corrente até hoje, mas a reveberação desta imagem está incompleta, porque, assim como os baionocêntricos desviam o nosso olhar para uma simetria comportamental, “a invenção do falo”, estudada por Durval Muniz Albuquerque Jr, mostra um sertanejo/nordestino cabra-macho, esquecendo a figura quase franksteiniana que Euclides descreve em seguida àquela frase inicial: “é um Hércules-Quasímodo” (o ensaio, por sinal, intitula-se “Hércules-Quasímodo: que sertanejo é este?”).

E se tomarmos o espaço do Nordeste como foco, ele mesmo é uma aberração geopolítica, que por duas vezes, no decorrer de sua configuração no século XX, inseriu e excluiu a Bahia de seu território pela evidente constatação de que ela não correspondia a uma nordestinidade perfeita.

A SUDENE assume a Bahia como nordestina, porque o “discurso da seca” a identifica como o Estado como a maior área de semi-árido da região. O que é um paradoxo, haja vista o norte de Minas Gerais ter sido área de atuação do órgão e nem por isso o mineiro de lá se vê como nordestino. Até porque a mineiridade é tão forte que empata em termos de concentração imagética e discursiva com a baianidade e outras idiossincrasias regionais.

Pensando na estruturação desses conceitos sobre Bahia e Nordeste, escrevi em 2010, para a edição comemorativa da Revista Nordeste, editada em João Pessoa, um artigo intitulado “Nordestinidade baiana”, no qual pontuo a dupla face de um baiano nordestino ou nordestino baiano, ou seja, como ele se vê ancorado a essas duas leituras de região: ora a Bahia como maior do que o Nordeste, devido à sua diferença cultural em relação aos outros Estados, comumente marcados pela unidade tendo Recife como centro; ora o Nordeste como maior do que a Bahia, na medida em que a ele está anexado por convenção geopolítica e, consequentemente, a todas as suas características sócio-econômicas.

Cláudia Vasconcelos flerta com isso tudo, demonstrando assim, competência na discussão do tema a que se propõe refletir. Foi providencial a descoberta de seu texto no SINBaianidade, porque deu ao meu um outro prisma de reflexão. A mesa da qual fez parte, “Quem cabe na baianidade?”, foi uma das mais concorridas, suponho eu, devido à própria provocação que a pergunta encerra.

Nesta baianidade, cabe, sim, Cláudia, o sertão. Aliás, foi em Seabra, sertão, Chapada Diamantina, centro geográfico da Bahia, para onde convergiram todas as Bahias, principalmente aquela do Recôncavo de Roberto Mendes e de Mateus Aleluia. Para que esta “inserção” aconteça, é preciso que os bons ventos de sua fala continuem levando para longe a cortina de poeira do essencialismo cultural.

A proposta é realizar a segunda edição do SINBaianidade, em Irecê, outra cidade sertaneja. Para mim, simbolicamente será uma coincidência especial, pois lembra Caymmi em duas passagens de sua biografia.
Uma, remonta à sua tenra idade. Segundo sua neta e biógrafa, Stella Caymmi, o primeiro exercício de composição dele não tinha o mar ou Salvador como tema, embora evidentemente essa paisagem praieira fosse constante em seu cotidiano, mas foi o sertão.

Intitulada no “No Sertão”, o adolescente Dorival Caymmi, em 1930, com 16 anos, cantava “Lá no sertão nasce a vida e a alegria no coração / (...) Nosso amor nasceu pelo São João, / Na roda brejeira, na fogueira ao soluçar do violão.”

O próprio Caymmi revelou que era uma letra cheia de lugares-comuns, bem no estilo modinheiro. Mesmo que tenha sido uma “brincadeirinha”, talvez inspirada em Catulo da Paixão Cearense e outras toadas de sua época, Caymmi não deixa de se interessar por outras referências culturais. Aliás, em seu acervo, disponibilizado na Fundação Tom Jobim, é possível encontrar o início de outra partitura com o título “Vou embora pro sertão”.

E Caymmi quase foi para o sertão mesmo. Esta é a segunda passagem de sua biografia a que me refiri. Como emprego estava difícil em Salvador para o jovem Caymmi, ele tentou, em 1935, aprovação em concurso público estadual para uma vaga de coletor de impostos em Irecê. Ficou em segundo lugar.

Enquanto aguardava ser convocado, caso o primeiro lugar desistisse, Caymmi ganhava dinheiro vendendo bebidas de porta em porta. Cansou-se de carregar mostruário pesado e de esperar sair no Diário Oficial sua convocação. Pegou seu violão e foi para o Rio de Janeiro em 1938. E foi lá, terra da Rádio Nacional, que ele bombou.

Já imaginou um Caymmi cantor e compositor de modinhas ou toadas sertanejas, o ambiente marinho trocado pela caatinga e, em vez de “O que é que a baiana tem?”, “O que é que a sertaneja tem?”. Se Irecê, segundo o próprio relato de Cláudia Vasconcelos, quando lá participou de um projeto social voltado para a agricultura, foi uma experiência especial em sua trajetória, porque não poderia ocorrer o mesmo com Caymmi?

É, mas o destino fez com que a sua estrada não fosse de terra batida, mas a das ondas verdes do mar de Yemanjá.

Parabéns, Cláudia pelo trabalho. Interessado que sou também pelo sertão, já estive envolvido com os estudos conselheiristas e euclidianos, esse seu estudo vem complementar minhas pesquisas sobre a baianidade. E para ficar.

domingo, 16 de outubro de 2011

I Simpósio Internacional de Baianidade




A UNEB, por meio de seus Departamentos, especialmente DCHT-Campus XXIII, que sediou o I SINBaianidade, potencializa a sua conformação de ser uma Universidade imprescindível para a Educação Superior no Estado, a partir de projetos científico-acadêmicos pontuais de afirmação institucional.

Presente na maioria das regiões da Bahia, a UNEB não tem como órgão suplementar um fórum de pesquisa e extensão multidisciplinar voltado para o debate sobre as identidades baianas.

Com o SINBaianidade, idealizado pelo professor, pesquisador de Jorge Amado e diretor do Campus XXIII, Gildeci Leite, deu mostras reais e concretas de que é possível congregar artistas, intelectuais, comunidades culturais e religiosas, saberes e pensamentos orais e letrados para dialogar sobre nossas experiências e vivências baianas.

A programação do evento teve palestras de Muniz Sodré, João Jorge (Olodum), Júlio Braga, Antônio Torres, Capinan; exibição de filmes, como "Jardim das Folhas Sagradas", de Pola Ribeiro, e "Bahêa, minha vida", de Márcio Cavalcante; shows de Mateus Aleluia, Xangai, Roberto Mendes, além de debates com professores, pesquisadores, estudantes em diversas mesas-redondas nos quatro dias de evento.

Fui convidado para participar da mesa "Claves e Acordes da Baianidade", ao lado do Prof. Dr. Armando Alexandre Castro (UFBA), "Axé music e baianidade"; do Prof. Ms. Carlos Barros, "As baianidades em Daniela Mercury e Ivete Sangalo: construções a partir das representações coletivas dos públicos do artista"; do Prof. Ms. Clebemilton Nascimento (UNEB), "Outras baianidades: representações de gênero e outros marcadores sociais da diferença nas letras dos pagodes baianos", e de César Rasec (Mestre em Cultura, jornalista e pesquisador musical), "Do trio elétrico à Axé Music: um novo olhar sobre a baianidade".

Debatemos com muitos momentos de calorosa intervenção do público sobre o valor acadêmico de nossas pesquisas, o que tem demonstrado que a baianidade musical é um dos pontos mais controvertidos dessa ideia de Bahia, até porque a música produzida aqui é mais popular do que a literatura e por isso a sua visibilidade é espontânea, vide os atores que a dinamizam e a força empresarial e mercadológica que a caracteriza.

O resultado deste evento, no qual a voz corrente era de que a iniciativa foi exemplar para as outras Universidades, não poderia ser outro: positivo. Embora ainda carente de estrutura maior para congregar o público com conforto, o esforço de todos da Comissão Organizadora para suprir essas lacunas deu o tom da exequibilidade de realização fora de Salvador de um evento sobre a sua hegemonia cultural na Bahia.

Deslocamos de um centro para outro (Seabra é o centro geográfico do Estado) as várias Bahias.

Esperamos que a próxima edição seja mais abrangente, desta vez, com o Núcleo de Estudos da Baianidade da UNEB criado para consolidar mais ainda nossos objetivos.




sábado, 1 de outubro de 2011

João do Rio, um flâneur carioca


João do Rio


João Paulo Emilio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto (1881-1921), nasceu antes do Rio de Janeiro tornar-se Capital Federal, nos "buliçosos" anos que fecharam o Império de D. Pedro II. Passou a ser conhecido por João do Rio nos anos da República, quando a imitação européia de viver, comer, beber, se vestir, além de fazer arte, influenciou as mentes da elite social e cultural brasileira, especialmente a carioca.

A leitura que João do Rio fez deste vanguardismo estético na literatura resultou uma obra "aclimatada" ao gosto nacional bastante singular entre os escritores de sua geração.

A começar pelo próprio perfil tanto literário quanto pessoal dele, talvez incomum numa sociedade letrada avessa a rasgos de ousadia artística e de comportamento.

Mulato, homossexual e gordo, isto não era impeditivo para João do Rio se esconder. Fino, inteligente e simpático, conquistou o público elitizado e popular com sua lavra bem desenhada e irônica ao traçar um Rio de Janeiro atrás do cartão postal de cidade com pretensões de ser a Paris dos trópicos.

Ele saía às ruas, com sua performance de flâneur, tal qual Baudelaire, e vestido em trajes bem cortados e caros, tal qual Oscar Wilde, para captar a "belle époque" carioca de todos os ângulos.

"A alma encantadora das ruas" é um livro de crônicas, cuja leitura é imprescindível para conhecermos este período no qual a literatura, pensando aqui no livro de Nicolau Sevcenko, era vista como missão, na medida em que os escritores assumiam um papel de intérprete do Brasil em fase de (re)definição identitária, com tantos problemas sociais e políticos pós-Abolição.

Tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras e levou para a Casa de Machado de Assis o que nas torres de marfim era visto como "mundano". Falar de personagens que não estavam nos romances tradicionais foi inclusive uma forma de ascensão de um gênero textual pouco estudado e aceito pela crítica literária de então, mas que durante o século XX verá o aumento de leitores e o surgimento de cronistas exemplares, como Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Inácio de Loyola Brandão, Luis Fernando Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro...

João do Rio em HQ será o máximo da divulgação em círculos de leitores pouco interessados em autores antigos, devido talvez a linguagem ou temas passadistas. Com o visual do graphic novel, tão presente hoje na editoração de obras literárias, o leitor universitário, aquele com quem tenho mais proximidade, passará a vê-lo com mais interesse, até porque serão formadores de outros tantos como professores de Literatura nas escolas e disto não podem prescindir.

João do Rio é finura de personalidade e de estilo, sem discriminar a patuléia e os "marginais" do Rio de Janeiro, um microcosmo do Brasil urbano do início do século XX. O funeral do escritor que morreu jovem, aos 40 anos, de ataque cardíaco, foi um dos mais concorridos da cidade, só visto igual no de Getúlio Vargas e Carmen Miranda.

Foi ovacionado pela rua que tanto celebrou.


São Paulo, sábado, 01 de outubro de 2011
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ROCK IN RIO? NÃO, JOÃO DO RIO

Allan Sieber e Allan Rabelo produzem livros em que adaptam para HQ a obra do cronista, autor de "A Alma Encantadora das Ruas"

Allan Sieber e Allan Rabelo
Acima, em adaptação de Allan Sieber para o conto "Pequenas Profissões", marinheiro é enganado no porto por ambulante

ROBERTO KAZ
DE SÃO PAULO

É 1916. João do Rio bebe vinho, em um camarim, ao lado da dançarina americana Isadora Duncan (1877-1927).
Ela começa a se despir, após uma apresentação no Theatro Municipal do Rio, mas é prontamente interrompida por ele: "Querida, por favor, não perca o decoro. Troque-se atrás do biombo."
Ela brinca -"Já viste mais que isso, João"-, relembrando o banho que tomara, nua, em uma cachoeira da Tijuca. "Parece ter gostado."
"Puro prazer estético", responde João do Rio.
A cena, desenhada por Allan Rabelo, faz parte do projeto de adaptação das obras do cronista João do Rio (1881-1921) para as HQs.
Há duas em andamento: a de Rabelo (com roteiro de S. Lobo para a editora Barba Negra) e a do cartunista Allan Sieber (para a Desiderata).
O trabalho de Rabelo e S. Lobo deve ficar pronto em 2013. Por ora, eles estão adaptando "A Alma Encantadora das Ruas", coletânea das crônicas publicadas por João do Rio no jornal "A Gazeta de Notícias" e na revista "Kosmos", entre 1904 e 1907.
Os dois, que já trabalharam na adaptação "Irmãos Grimm em Quadrinhos" (Desiderata), tomaram a liberdade de criar personagens, como Massarelo Lopes, imigrante que dá golpes baratos, faz michê e tem um caso com João.
Se ativeram, no entanto, à linguagem da época. Assim, falam do suposto "flirt" (flerte) do cronista com Isadora Duncan, quando ela esteve no Rio em 1916.
As crônicas de João do Rio retratavam, com afeto, um submundo de personagens marginais que compunham a fauna urbana carioca no começo do século 20.
Eram ciganos, prostitutas, tatuadores, marinheiros e vigaristas que esfolavam gatos mortos para vendê-los, aos restaurantes, como lebres (daí a expressão "comprou gato por lebre").
João do Rio, ele mesmo, não representava os padrões vigentes: andava de fraque verde, era gordo (tinha hipotireoidismo) e homossexual.
Segundo João Carlos Rodrigues, autor de "João do Rio - Vida, Paixão e Obra" (Civilização Brasileira), a faceta "maldita" das crônicas refletia um lado também maldito do autor. "Ele era um dândi, que frequentava a alta sociedade mas era contra ela."
Essa postura irônica foi uma das razões que motivaram o cartunista Allan Sieber a também fazer uma adaptação, a ser lançada em 2012.
"No começo, sugeriram 'O Triste Fim de Policarpo Quaresma', do Lima Barreto, que não combinava com o meu traço", disse Sieber. "Quando trocaram pelo João do Rio, topei, porque ele tinha aquele ar meio cínico."
Sieber, quadrinista da Folha, dividiu sua versão em três partes. Baseou-as no conto "O Homem de Cabeça de Papelão" e nos livros "Dentro da Noite" e "A Alma Encantadora das Ruas".
Diz quase não ter alterado a narrativa: "Eu ficava travado com a reconstituição histórica, mas o restante estava ali, pronto". Preocupou-se em não fazer "um livro condensado para idiotas, um 'João do Rio for Dummies'".
Também no livro de Sieber há cenas em meio a prostitutas, michês e trombadinhas. Numa delas, o texto diz: "As meretrizes mandam marcar corações com o nome dos amantes. Se brigam, removem a tatuagem e marcam o mesmo nome no calcanhar. É a maior das ofensas: nome no chão, roçando a poeira...".

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A laje dos que olham para cima


Vista da Baía, a partir do alto de um bairro do subúrbio de Salvador


O brasileiro é sonhador. Sonha com o carro 0km, com a tevê digital, com a casa própria... Esse último desejo talvez seja o que movimenta a força física e mental para sua realização, vide o déficit habitacional no Brasil de quase 70% da população.

Com a expansão do crédito imobiliário, os brasileiros que ascenderam na escala social nos últimos 10 anos têm aproveitado para conseguir seu apartamento ou casa, outrora só possível se entrassem na lista de desabrigados devido a alguma catástrofe ou expulsos de uma ocupação ilegal para receber uma habitação popular.

Aos resistentes, quando compram um terreno, ainda passam pela dificuldade de construir. Com pouco dinheiro, a casa é erguida a conta-gotas, o que pode levar anos, mas pelo menos, o sonho da casa própria se materializa, às vezes, com o sonhador morando sem o imóvel estar com condições de moradia.

Sem teto, a laje é o limite que os sem-teto sonham . "Bater a laje" é uma realização inigualável na vida dos sonhadores. Já virou um rito de passagem pela qual não somente o dono, mas toda a vizinhança tem que experimentar, até porque os vizinhos, se não vivenciaram essa ação comunitária no seu imóvel, um dia será a sua vez de congregar todos na construção de sua subida.

Na laje, se faz de um tudo. Lavar e estender roupa, tomar banho de sol, empinar pipa, promover festa à base de churrasco e pagode... No Profissão Repórter desta semana, o tema foi este, a laje como espaço de sociabilidade nas periferias de São Paulo e Rio de Janeiro.

Como no Rio de Janeiro as favelas tem localização privilegiada nos morros circundantes à Baía de Guanabara, os donos têm uma sensação de que não precisa pagar caro por uma visão do mar. Subir à laje, é como subir à cobertura de um apartamento nas avenidas Vieira Souto ou Atlântica.

Em Salvador, não é diferente. A faixa de terra que vai do Porto da Barra até o subúrbio ferroviário nos dá momentos de contemplação da Baía de Todos os Santos, seja na cobertura da Morada dos Cardeais, na Vitória, o metro quadrado mais caro do Nordeste, até na laje de uma casa no Alto do Cabrito, um dos metros quadrados mais populosos e pobres da cidade.

E por falar em Cabrito, foi lá, na década de 70, antes de virar conjunto habitacional, onde eu passava temporadas no sítio de minha avó. Casa de telha vã, não precisávamos escalar para ver o pôr-do-sol no fundo da baía. Dali mesmo, da varanda, víamos o sol dar lugar a lua, ouvindo as cigarras e os grilos.

Quando queríamos ver o mar de uma altura maior, inclusive os prédios da Cidade Alta, sentávamos no balanço preso a uma mangueira e pedíamos que nossos tios, sem pena, nos empurrássemos com tanta força que a sensação era de que estávamos voando para lá e mergulhando nas águas da baía.

Hoje, no Cabrito, tudo virou laje, mas a visão continua exuberante.


domingo, 25 de setembro de 2011

Faça Letras!

Sou leitor assíduo da Revista Piauí desde seus primeiros números. Encontrei a melhor forma de ler matérias longas, com profundidade de análise e diversidade temática, não encontradas na maioria das revistas nacionais.

Uma das seções de que mais gosto é Esquina, que descreve em pequenos perfis a vida de personagens anônimos, na maioria das vezes flagrados por seus ofícios e afazeres pouco usuais ou desconhecidos do grande público.

Na edição de setembro, li o perfil de um metalúrgico que quer estudar Letras para ter mais intimidade com os poetas Drummond e Cecília Meireles.

Transcrevo abaixo o texto para nos estimularmos a ter mais valor pelas Letras, que está carecendo realmente de interessados em ensino e pesquisa de Literatura e Língua.

Faça Letras! Tem que saber e gostar de ler, no mínimo. Aos aventureiros, é melhor praticar rapel, montanhismo, jump, são atividades menos arriscadas.



O torneiro e o poeta

Inspirado por Drummond, metalúrgico quer viver dos seus versos
por Fábio Fujita
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á três anos, quem ousasse falar de poesia a Rodrigo Inácio seria recebido com um olhar atravessado de reprovação. Era melhor que ficasse longe, guardando um perímetro seguro do interlocutor. O jovem metalúrgico tinha uma opinião fechada sobre quem gostava de versos e rimas. “Eu achava que poesia era coisa de viado”, lembrou, sem tergiversar. Tudo mudou quando precisou correr atrás de palavras definitivas para se dirigir a uma moça. Ciente das próprias limitações lexicais, viu-se obrigado a consultar o grande repositório da sabedoria universal e foi ao Google. No campo de busca, Inácio digitou “Frases bonitas”. No primeiro clique, deparou-se com o poema “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade. Os versos que leu na tela não contribuíram para melhorar seu juízo sobre os poetas. “O cara deve ser idiota para escrever um negócio desses”, concluiu, no que foi a sua primeira crítica literária.
Inácio não se deu por derrotado. Por ironia, acabou gostando mesmo foi de um verso atribuído erroneamente a Drummond na internet – aquele que diz que “A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”. Aquilo, sim, soava bem. Esmerou-se na escolha da fonte e despachou o verso à sua bela, que respondeu dizendo ter achado “interessante”. A reação foi suficientemente animadora para incentivar Inácio a gastar mais Drummond para cima da moça – agora do legítimo, não do falsificado. Num sebo, comprou O Amor Natural para dar-lhe de presente. Não sabia, claro, que aquele era o livro de poemas eróticos do autor, no qual línguas lambem pétalas vermelhas e o poeta suga e é sugado pelo amor. O rapaz se envergonhou de lembrar do caso. “Você é um besta de me mandar um livro daqueles”, foi a resposta que a menina lhe deu.
Para não repetir gafes dessa magnitude, Inácio passou a estudar com afinco a obra de Drummond. Ficou abismado quando leu “Memória” (“As coisas tangíveis/ Tornam-se insensíveis/ À palma da mão/ Mas as coisas findas/ Muito mais que lindas,/ Essas ficarão”). Era muita frase bonita para um poema só. Inácio ficou de bem com o autor mineiro. Mas continuou encucado com “No meio do caminho”. “Só depois de passar um longo tempo amistoso com Drummond é que fui entender e gostar desse poema”, explicou, em um notável exercício de revisão no qual muitos críticos deveriam se espelhar.
De Drummond para outros autores foi um pulo. Inácio continuou exigente. “Vinícius de Moraes era muito mulherengo”, não demorou a constatar. Experimentou também um pouco de prosa. Encantou-se com Clarice Lispector. Gostou de A Hora da Estrela e A Paixão Segundo G. H. “Acho que, no fundo das palavras dela, há um certo tom de feitiçaria”, ponderou. “Ela era bem doida. Tadinha, morreu de câncer.”
Aos 21 anos, Inácio mora em Diadema, na periferia de São Paulo. Para ir e voltar do serviço, no bairro do Ipiranga, na capital, pega seis conduções diárias, entre ônibus, trólebus e trem. Estudou só até o 3º ano do ensino médio. Como preparador de torno no ramo industrial, ganha dois salários mínimos. Mesmo assim, pagou 200 reais num raro disco de vinil intitulado Antologia Poética, em que Drummond declama seus versos.
Sem receio de melindrar seu ídolo, Inácio disse que queria comprar também o disco de poemas de Cecília Meirelles. “Mas o dela está a 450”, lamentou, após pesquisar na internet. A triste verdade é que os áureos dias de Drummond já se foram. “Hoje gosto mais da Cecília”, admitiu o torneiro. “Não estou desmerecendo Drummond, mas a Cecília, além de ser linda, muito linda, escreve muito bem”, derreteu-se.
ara o jovem metalúrgico, o único problema com sua paixão pela poesiaé não ter com quem conversar. No serviço, há quem ache que Rodrigo Inácio é viado. “Mas eu não ligo”, assegura. A única pessoa com quem fala sobre poemas é uma garota que conheceu num ponto de ônibus. Ele puxou assunto quando viu que conhecia o livro que ela lia – Pollyanna. “É sobre uma menina bobinha que acha que tudo no mundo é belo”, explicou.
Com familiaridade crescente com as letras, era natural que Inácio acabasse tendo vontade de desenvolver sua própria produção poética. Começou a fazer poemas, alguns sobre amores malfadados, outros inspirados pelas coisicas do cotidiano. “Já escrevi um poema porque vi um pássaro voando.” Diz já ter pelo menos uns trinta. Tudo na gaveta. “A crítica é inevitável, mas tenho medo de as pessoas acharem os poemas tristes”, alegou para justificar o ineditismo. Mas o pior mesmo, disse o torneiro, é quando alguém lê e não entende os versos. Poesia não é remédio para precisar de bula.
O poeta Rodrigo Inácio hesitou, mas criou coragem e mostrou alguns de seus escritos tirados de uma pasta. Um poema chamado “Canção esmorecida” trata da insignificância da existência e da passagem inexorável do tempo. “Apenas uma árvore triste que sou/ Tão fria e tão silenciosa/ Que não sente o tempo passar/ Que não sabe se ama ou gosta”, dizem os primeiros versos. A estrutura se repete nas estrofes seguintes. A última delas é melancólica: “Apenas uma simples hera que sou/ Que olha o mundo inteiro passar/ Que observa cada rosto/ Mas que não sabe até quando irá durar.”
O uso de “hera” e outros termos do registro mais erudito é herança daquele que um dia desdenhara. “É Drummond.” Inácio gostaria de trocar o torno pela pena. Chegou a pedir a uma amiga, que é professora, aulas particulares de metrificação. Como pagamento, está disposto a oferecer o próprio disco do Drummond, o seu maior tesouro.
Daqui a um ou dois anos, pretende largar a metalurgia e começar a trabalhar com tecnologia da informação, uma carreira que paga bem e lhe permitirá conciliar a sonhada faculdade de letras. Para isso, será inevitável estudar ciências exatas para o vestibular. Inácio não vê essa perspectiva com serenidade. “O cara que descobriu a matemática, mano, tem que morrer de madeirada”, queixou-se. Vai ser uma pedra no seu caminho.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Universidades Federais X Universidades Estaduais na Bahia

Sou egresso do Instituto de Letras da UFBA, formado há 12 anos. Nesta Universidade eu aprendi a ser um profissional interessado e competente na área a que me dedico hoje como professor da UNEB, da qual sinto orgulho de fazer parte, tanto quanto docente quanto como coordenador de curso.

Na UFBA, depois de retornar do mestrado na UFPB, fiz seleção para ser professor substituto de literatura portuguesa. Dividi o mesmo espaço com ex-colegas, então professores efetivos, e ex-professores, que se tornaram colegas de trabalho.

Vivi os dois lados dessa experiência acadêmica. Eu já estava aprovado na UNEB, mas esperava ser convocado antes de terminar o contrato da UFBA. Terminou por eu ter ficado em ambas por uns seis meses. Era a própria realização profissional para quem sempre sonhou ser professor universitário aprovado em concurso ou em seleção pública.

Há cinco anos na UNEB, conheci com mais profundidade os problemas desta Instituição, principalmente na falta de estímulo à carreira docente, com a limitação de progressão ou promoção pelo Governo, além, é óbvio, da falta de estrutura física ou carência de professores.

Assim mesmo, peguei gosto pela UNEB, pois foi através dela que publiquei meu livro, cresci profissionalmente como professor e pesquisador, e conheci pessoas maravilhosas, entre alunos e colegas.

Passei por duas greves durante o Governo Wagner, nas quais apoiei a nossa demanda por aumento de salário e condições de trabalho decente, frente à demanda de educar jovens estudantes e futuros professores de Letras.

Fico me perguntando por que o Governo do Estado gasta mais publicidade divulgando as novas Universidades Federais do que UEFS, UNEB, UESC e UESB. Penso que a intenção é sucateá-las, torná-las invisíveis, porque o senso comum, inclusive no Governo, diz que Federal é melhor do que Estadual.

Ledo engano, inclusive é sabido que tem universidades estaduais melhores do que as federais, como é o caso da USP e UNICAMP. Até no Nordeste, a UEPB (Paraíba) paga salários melhores do que a federal local.

Aqui na Bahia, os estudantes da UFRB paralisam as atividades em todos os centros da Instituição para denunciar falta de tudo.

Na campanha à releição ao governo estadual, o Sr. Jaques Wagner respondeu, no debate da Tv Aratu, ao questionamento de uma professora da UEFS sobre a situação das estaduais com uma fala em prol das federais que estavam já instaladas, como a UFRB e UNIVASF.

Penso que podemos conviver na mesma região com duas universidades. É benefício para todos e dinamiza-se o mercado de trabalho. Mas a que preço? Investimento em umas e corte de verba em outras?