sábado, 13 de novembro de 2010

Ildásio Tavares, um mestre



O poeta Ildásio Tavares faleceu no dia 31 de outubro. Soube de seu funeral, quando já tinha acontecido, no dia seguinte. Rascunhei esse texto para lembrar de meu contato com ele.
Conheci Ildásio Tavares durante o curso de Letras na UFBA. Antes mesmo de ser seu aluno em Literatura Portuguesa II, já nos cruzávamos pelos corredores, mas sem nos cumprimentarmos. Passava sempre sério e demonstrava certa sisudez.
Quando tínhamos aulas de outras disciplinas na sala de pesquisa do setor de Literatura Portuguesa, eu pegava, por curiosidade, alguns livros de sua autoria para ler, colocados numa estante de aço, encostada a uma parede desenhada por um opachorô de Oxalá à lápis de cera. Só soube que aquele desenho era dele pelas faxineiras do Instituto de Letras, que foram obrigadas a não limpar a parede porque o professor Ildásio não permitia.
Quando fui seu aluno, tive umas das maiores descobertas literárias, uma experiência de leitura que até hoje não perdeu o viço daquele instante. Fernando Pessoa e Florbela Espanca me foram revelados pela didática nada convencional de Ildásio Tavares, entre anárquica e contemplativa.
Lembro-me que o prazo para entrega do trabalho sobre o autor português de nossa escolha tinha acabado, mas que pelo meu interesse e participação na disciplina, foram dados mais três dias de tolerância. A data coincidia com a posse de um novo membro na Academia de Letras da Bahia e ele disse que eu levasse lá. Como não tinha ainda habilidade com o computador, que horas antes apagou o documento, fiz o trabalho à mão, que resultou em vinte páginas.
A partir deste envolvimento acadêmico, Ildásio me convidou duas vezes para visitar sua casa na Pedra do Sal, em Itapuã, rua Vinicius de Moraes. Na primeira vez, foi um almoço com outros colegas. Na ocasião, muito receptivo, fez um peixe assado, um verdadeiro manjar. Na segunda vez, foi para me presentear com livros seus.
Sua generosidade comigo foi maior, quando sofri um assalto violento em Lisboa em 1996, em viagem de turismo. Fiquei hospitalizado por um mês e meio, com os braços fraturados e escoriações diversas. Prontamente ao saber do caso pelos jornais, enviou um fax a um amigo seu, pedido ajuda para me atender. Eis as suas palavras:
Caro Aéssio: Marielson Carvalho Bispo da Silva, aluno meu do Instituto de Letras, escritor, pessoa de alto nível moral e intelectual, foi barbaramente espancado por um assaltante em Lisboa, tendo inclusive dois braços fraturados, traumatismo craneano, 4 dias em coma, e seu estado causa preocupação na primeira página dos jornais e começa a se transformar num incidente internacional. Mas, afora isso, o que eu gostaria mesmo é que você , que tem sido um amigo meu solidário, fosse visitá-lo no hospital e me desse alguma notícia. É só visitá-lo mesmo. Ele está coberto por seguro de saúde. Ele está no Hospital São Lázaro, tel: 887-3131, serviço 9, sala 1, cama 3. Te agradeço muito. Desculpe, tenho muitos amigos em Lisboa mas nessa hora só pensei em ti, tchê. Abracíssimo.
Meses depois deste episódio, estava passando uma tarde em Itapuã, decidi estender a caminhada pela praia até à sua casa. Como sempre, ele foi muito receptivo. Em seu gabinete, me fez uma revelação. Ao consultar os búzios, disse que Omolu era meu orixá. Recomendou-me um trabalho de limpeza espiritual com pipoca para expurgar energias negativas. Mas como naquele instante eu me considerava cético em relação a isso, não segui suas orientações. Anos depois, sentindo esta necessidade, passei a ir na festa de São Lázaro em janeiro para minha lavagem anual.
Agora, relendo o original do fax, entregue a mim no dia daquela visita, me atentei para um detalhe. O hospital onde fui primeiramente internado foi São Lázaro, que no paralelismo sincrético com o candomblé é Omolu. Dia 17 de dezembro é o dia consagrado ao santo. Dia de meu nascimento.
O mestre Ildásio Tavares, Oba de Xangô do Ilê Axé Opô Afonjá, sabia das coisas.
Atotô!

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Bienal do Livro 2010

Reitor da Uneb, Lourisvaldo Valentim

Diretora da EDUNEB, Nadija Nunes

Apresentação dos livros pelos autores
Desembarquei em São Paulo em plena sexta-feira, 13 de agosto, para o lançamento de meu livro "Acontece que eu sou baiano: identidade e memória cultural no cancioneiro de Dorival Caymmi" na Bienal do Livro 2010, no stand da ABEU (Associação Brasileira de Editoras Universitárias). A convite da EDUNEB, leia-se Nadja Nunes, diretora do selo, e na companhia de outros professores da UNEB, falamos para um público de editores e pesquisadores sobre nossos livros.

Dos 15 exemplares de "Acontece que eu sou baiano" enviados para a Bienal, 11 foram vendidos no primeiro dia e antes mesmo do lançamento. Detalhe: eu não autografei nenhum, mas fiquei feliz pelo fato de terem adquirido quase todos. Espero que com o término da feira hoje, eu tenha fechado com zero no estoque.

Aliás, a edição está praticamente esgotada, frente ao número de 300 exemplares que a FAPESB, financiadora do projeto, aprovou. 100 livros foram doados às bibliotecas da UNEB, mais 100 ficam com a editora e a outra centena é do autor.

Os exemplares da editora serão vendidos à Fundação Pedro Calmon, que selecionou o título para o projeto Mais Cultura, que distribui livros de autores baianos nas bibliotecas públicas.

Dessa forma, só resta a minha cota para o lançamento em Salvador, o que é pouco, pois metade desses 100 exemplares é para divulgação e distribuição gratuita a pessoas e instituições que colaboraram para a conclusão da obra. Assim, penso eu, a editora fará uma nova edição revisada para os lançamentos futuros. Isso para um autor estreante é uma vitória, mais ainda em se tratando de um ensaio. Tenho certeza que o tema ajuda muito no interesse das pessoas, pois quando se fala em Caymmi, as pessoas sorriem, porque de fato a música caymmiana é alegre e festiva, e sua própria imagem é um convite à felicidade.

Aliás, desde quando comecei a pesquisar sua obra, a felicidade também tem me visitado. Muito do que tenho alcançado na vida pessoal e profissional nos últimos 10 anos deve-se ao compromisso e à seriedade com assino minhas pesquisas sobre Caymmi.

Sobre Caymmi, só ressalto o que é próprio de si mesmo, ou seja, quando analiso suas canções, traço o que ele mesmo apreendeu de sua experiência como baiano, nascido e criado em uma Bahia particular e afetiva, não aquela imposta ou inventada por outros.

É sua memória o que me interessa e isso já é uma tarefa difícil de interpretar, porque somente ele a conheceu bem, e o pouco que ele nos revela, está em suas canções. Basta ouvi-las. E deixem que elas mesmas falem por si.

domingo, 14 de março de 2010

O Colegial - conto




Penso em você. O que? E continuou a andar. Não acreditou no que ouviu, mas também não quis explicação. A pergunta foi para se esquivar. Sim, penso em você. Não o conheço, como pode pensar em mim? E precisa te conhecer pra ser admirado? Sempre quando vou à padaria, no final da tarde, ele passa por mim. Umas vezes, me olha fixamente. Outras, desvia o olhar, mas continua olhando pelo canto do olho. É impressão minha ou quando estamos em lados opostos da rua ele atravessa para o meu lado? Ei, cara, vou ter que adiantar, não vou ficar pro jogo. Todo dia é isso. Amanhã eu fico. Amanhã, amanhã... vou botar outro no seu lugar. É que tenho que estudar, velho, perdi em três matérias. Suas pernas longas, grossas, de poucos pêlos, estão sempre à mostra por conta dos shorts azul, preto, ontem estava com o que mais gosto, branco com aberturas laterais, bem curto. O peitoral é de quem está malhando, os braços também. Os ombros bem alinhados. O pescoço, rijo. Suas feições são já de adulto, mas o olhar é de menino, curioso e traquina. Pelugens cheias de falhas estão nascendo nas laterais do rosto, no queixo, mas quem disse que ele pensa em tirar? Nem eu quero, essa hombridade juvenil me encanta, nele especialmente. E a voz é forte. Ouvi agora, quando falou “como pode pensar em mim?” Como pode? No banheiro, depois de chegar em casa, ele repetiu aquela frase enquanto se ensaboava, mão nas axilas, no peito, na virilha... Nunca o vi com o uniforme, mas deve estudar no Salesiano, já que por duas vezes acompanhava outros rapazes deste colégio. Ele é o meu colegial. De escola pública ou particular, pouco importa. Está interessado em aprender muitas coisas e eu em ensinar. E aprender também. Não parece ser tão ingênuo assim. Se tiver 18 anos, para mim, que tenho 30, não chega a ser desproporcional. Sim, ele tem 18. Perguntei numa segunda tentativa de puxar uma conversa. Desta vez, parou um pouco e com certa irritação pediu que não mais falasse com ele. Tenho namorada e não curto essa, falou? Nesse dia, jogou uma partida com o colega que insistia há vários dias. Estava suado, seu cabelo molhado, sua blusa colada à barriga, seu cheiro viril. Até que enfim, hein, acho que tem outra coisa aí? Aí, o quê? Ah, essa de você não querer mais jogar com a gente e fugir sempre neste horário... Ô, não é você que diz sempre “amanhã, amanhã”? Tá desconfiado de quê? Nada, cara, só falei que... Já disse, tô estudando muito. Antes era você quem insistia, até esquecia que tinha algum trabalho de aula para fazer. Pois é, agora, tomei responsabilidade, minha mãe disse que do jeito que estava não dava mais para aceitar. Fique um pouco, vamos tomar um caldo de cana na barraca. Tenho que ir, cara, já está anoitecendo. Já vai estudar? Não, vou descansar. Acelerou o passo e ainda conseguiu me ver dobrando a esquina com o saco de pão quentinho. Adiantou-se, passou por mim e seguiu sem olhar para trás. Tentei acompanhá-lo e quando estava bem perto disse: Ei, espere. Virou-se repentinamente e estendeu o braço para me empurrar, teria sido isso mesmo ou um gesto involutário, de insegurança e desejo juntos? Defendi-me com o saco, que caiu no chão, espalhando alguns pães. Desculpe, cara, não foi minha intenção. Agachou-se e recolheu os pães. Não, estes não servem mais. Fechou o saco e me deu. Desculpe. E saiu. Envergonhado. Eu sorri, perdoei. Em casa, tomou vitamina de banana e comeu pão com queijo. Lembrou do cara do pão quentinho que dá em cima dele todo dia no final da tarde. O colega de futebol liga. Festa amanhã. Vou. Às 9, passo aí. Falou. Arrumado, espera no playground do edíficio. Que festa é essa? De uns caras que eu conheço, gente do bem. Que tipo? Dá de tudo lá. Drogas? Também. Tô fora. Meninas, meninos, adultos, coroas... Pararam antes num posto de gasolina, beberam energéticos. Veio o papo. Danilo. Danilo é o nome dele. O que é? Antes de chegar lá quero te falar uma coisa. Sim. Velho, fique na sua, calado, não fale pra ninguém. Qual é o segredo? É que tô curtindo um cara bacana, de 28 anos, gay, figura nota 10. O quê? Repita aí. É isso mesmo. Você é viado? Não é isso. Sou bi-transitivo, tipo verbo com dois complementos. Roger, isso é grave. O mundo não vai acabar não, Danilo. Não acredito. E tem mais: sempre achei você interessante, mas... Mas, o quê? Mas sei que não é sua curtição. Ainda bem que pensa assim. É isso. E é pra lá que nós vamos? Pra casa de seu namoradinho? É. Por que não disse antes? Você não corre perigo, ninguém vai te aborrecer, estarei por perto. Quero ver. A surpresa. Eu estava lá. Amicíssimo do aniversariante, quase irmão de sangue, era presença mais do que especial. E Roger chega com Danilo. Seus olhos se abriram e assim ficaram congelados e assim mostraram que eu não era real. Inimaginável. Eu, que estava bebendo um gole de champanha, engasguei. Danilo sacou na hora. Não houve disfarces. Impactante mesmo, ainda mais que fui eu quem os recebi. Na sala de visitas, tinha poucas pessoas, a maioria estava no jardim e ao redor da piscina. Se conhecem? Não!, disse ele rápido. Sim, respondi apertando sua mão, mas não sei seu nome. Trêmula a mão, gelada também. Roger me olhou com sorriso irônico. Danilo. Guido. Neste instante, aparece o anfitrião. Paulo. Demorou, Roger. Trouxe aquele colega que te disse. Oi, Danilo. Cumprimento frio. O que foi que aconteceu com ele? Pergunte a Guido. Não tenho nada a dizer. Será? Roger, vou embora. Não, cara, relaxe. Dei um lenço de papel para ele. Suava nervoso. Não enxugou, amassou na mão. Sente aí, rapaz, tome um refrigerante, aqui menor não bebe álcool. Tenho 18 anos. Liberado então. Roger, cuide dele, Guido, venha cá. Contei tudo a Paulo. Ele é lindo, amigo, mas pelo que Roger me disse ele não curte. Respeito sua posição, mas não resisto em investir toda vez que o vejo. Esse é o momento de vocês conversarem. Roger pode ajudar. Esse cara me segue todo dia quando saio do colégio, Roger. Mas ele é do bem, discreto, inteligente e educado, mora ali, no Jardim Baiano, é professor universitário. Sim, isso tudo não me diz nada. Tudo bem, mas é uma referência boa dele e está sozinho. Você tá me jogando pra ele? Não sei, depende de você. Velho, não sou gay, não! Tem certeza? Tenho. Não achei firmeza nesse “tenho”. Tá me estranhando, é? Sabe de uma coisa, cara, é coisa de amigo o que vou falar. Diz. Acho que você tem vontade e curiosidade de transar com outro homem, e digo mais, por diversas vezes já flagrei você secando Robson do 3° ano vespertino, aquele moreno que faz natação... Qualé, Roger! Ele é interessante, não é? Sei lá! Sabe, sim, se lembra daquela vez quando ele foi para o vestuário tomar banho depois do jogo? Não sei. Você foi o único a acompanhá-lo. E daí? Daí que, demorou um pouco e todo mundo foi embora, só eu na quadra, depois entrei no vestuário sem ninguém perceber e vi você se masturbando na sua cabine, olhando pro cara no chuveiro. O quê? E não foi? Seu sacana! Relaxe, relaxe, ninguém vai saber. Eu me aproximo e pergunto se os dois vão beber algo. Faça companhia aqui a ele, Guido, que vou pegar. Ei, também vou, disse o rapaz. Fica, insisti. Ele se acomodou no canto do sofá. Que é que você quer comigo? Sempre gostei de você, mas nunca tive jeito de me aproximar. Agora não tem jeito, né? E sorriu para mim. Virou os olhos em seguida e começou a mexer nervosamente os pés. Se acalme, Danilo. Não deveria ter vindo. Mas você está aqui e não vai sair enquanto não conversar comigo. Altas horas, quase amanhecendo e nós, sozinhos, deitados nas cadeiras de sol ao lado da piscina. Quase todos os convidados já tinham ido embora, só restando mesmo Roger, Paulo e três outros casais gays. Conversamos sobre nossos sonhos e fantasias, decepções e experiências, desejos e tesões. Ele já tinha parado de beber antes de ficar bêbado, mesmo assim, pareceu mais desinibido, a ponto de me puxar, pela mão, da sala para a cobertura. Ela é macia, mas grande e forte como de um titã. Pensei em não forçar a barra. Agora que eu já lhe disse tudo o que pensava a seu respeito, deixei-o decidir. Posso continuar pensando em você? Sua resposta foi um sorriso mínimo, mas que entendi como expressão mesma de sua timidez. Domingo se passou e a ansiedade de, na segunda, à tarde, naquela hora em que é mais gostoso comprar e comer pão quentinho, eu ver meu colegial passar. Será que ele vai me cumprimentar? Tudo bem, como foi o fim-de-semana? Falei com o atendente da padaria, Vou querer seis francês. Paguei. O próximo. Um sonho. Estaquei com meu coração palpitando a mil. Aquela voz... Olhei para trás. Um não, dois, você quer um Guido? Não respondi, emudeci. Fiquei sem chão. Sem ar. Sem argumentos para dizer não. Pães quentinhos no saco. Saímos da padaria comendo sonhos açucarados com recheio de goiabada. Tudo doce. Tudo um sonho mesmo. Fez o que ontem? Dormi até de tarde, depois fui pra casa de minha namorada, e você? Fiquei lendo, assistindo a alguns documentários na tevê, internet... Limpe o canto da boca, está sujo. E me deu seu guardanapo. Obrigado. Desculpe se naquela noite eu fui grosso com você, entenda, é difícil para eu aceitar isso. Isso o quê? Você. Eu? Sim, você e... eu. Eu não lhe disse, mas eu não ficava até de noite na quadra com os colegas, depois das aulas, porque queria saber quem era você... Sério? Sério, achei muita coragem encarar outro homem e dizer “penso em você”, não teria tanta ousadia... Demorou para que eu decidisse fazer isso. Foi a primeira vez que eu me deparei com isso. Você gostou? Não quis aceitar que gostei, daí minha confusão. O que você acha de mim? Um broder sério, plantado, faz meu tipo. Rimos do avanço que a conversa estava tomando. Chegamos à esquina da minha rua. Aceita um café? Não tomo. Faço então um chocolate. Será que devo aceitar? Vamos terminar de comer esse sonho lá em casa. Não sei, não quero ir para... Para, o quê? Só o chocolate, falou? Não respondi. Numa igreja perto, os sinos anunciavam a hora da Ave Maria. O céu de verão ainda estava claro, raios de sol entravam suavemente pela janela da minha sala. E pelo quarto também. Mas quando deitamos na cama, só a brisa quente é que vinha de fora. Os mesmos sinos horas depois nos acordaram de um sonho quase eterno. E o telefone celular dele também. Tenho de ir pra casa, amanhã em frente à padaria a gente se vê. E eu voltei pra cama. No lado, onde ele dormia minutos antes, ainda estava quente como um pãozinho saído do forno...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Pensemos no Haiti: post scriptum

Nos EUA, o pastor evangélico Pat Robertson em uma declaração infeliz e preconceituosa atribui o terremoto a um castigo divino pelo pacto com o diabo feito em 1804 para o país tornar-se independente. "Eles estavam sob o domínio francês. Você sabe, Napoleão 3º, ou o que for. Então eles se juntaram e selaram um pacto com o Diabo. Disseram: 'Vamos servi-lo se você nos tornar livres dos franceses. É uma história verdadeira. Então, o Diabo disse: ok, negócio fechado." Estúpido e inconsequente.

Outra fala desagradável foi a de Gerge Samuel Antoine, cônsul do Haiti no Brasil que, sem saber que estava sendo gravado, confessou a uma repórter do SBT que "a desgraça de lá está sendo uma boa pra gente aqui, fica conhecido. Acho que de, tanto mexer com macumba, não sei o que é aquilo... O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano lá tá f...".

O presidente Barack Obama por meio de seus assessores disse que o pensamento do pastor extremista não corresponde ao do governo e que dará apoio total ao Haiti. O cônsul, que é católico, reafirmou à repórter a sua opinião e disse ser a pessoa mais indicada ao cargo. Pasmem! Esse diplomata merece perder suas credenciais no Brasil.

A intolerância em uma situação como essa não vai ajudar as vítimas nem ressuscitar os mortos. A fala dos dois bestializados senhores só demonstra que o racismo, especialmente contra o negro e suas africanidades, ainda não foi expurgado das mentes das pessoas e que as força a cometer desatinos perigosos. Será que esse Deus também é racista? Se assim for, é pior do que pintam do Diabo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Pensemos no Haiti




Haiti: desespero, caos e sofrimento


A primeira notícia que li nesta manhã de quarta-feira foi a tragédia no Haiti. Estou consternado.

O terromoto que se alastrou pelo país, completa o caos político, econômico e social em que ele se viu engolfado nos últimos anos. O Haiti povoa meu imaginário como o lugar da resistência anti-escravista e anti-colonial. Aprendi ainda jovem nas aulas de História que foi lá, no século XIX, mais precisamente em 1804, depois de doze anos de revolução, que Toussaint Louverture declarou a independência do Haiti, a primeira nação negra livre das Américas.

A insurreição começou ainda século no XVIII, em 1791, em uma cerimônia de vodu, na localidade de Bwa Kayiman conduzida por Cécile Fatiman, uma manbo, mãe-de-santo, e duzentos fiéis. Neste evento, os espíritos ancestrais convocaram os negros para uma experiência libertária contra opressão escrava jamais vista até então no continente americano e que se transformou em referência para o afrocentrismo e outros movimentos negro-africanos.

Essa relação entre religiosidade e resistência que resultou na vitória dos negros está presente nos valores nacionais haitianos, como no hino nacional, que evoca os ancestrais a ajudar na condução e no fortalecimento da nação.

O culto do vodu foi o que amalgamou todos os escravos na luta pela liberdade, fraternidade e igualdade, valores em voga na época inspirados na Revolução Francesa e que estimularam os colonizados a fazerem valer o que aprendiam com os próprios franceses.

Uma das matérias do Folha Online que li, reproduziu o depoimento do antropólogo brasileiro Omar Ribeiro Thomaz, que tive a oportunidade de conhecer e participar de um curso seu no CEAO sobre Haiti e Moçambique em 2003. Ele está fazendo pesquisa em Porto Príncipe com estudantes universitários da Unicamp. A reação dos haitianos diante da tragédia, segundo o professor, é entoar cânticos religiosos. Independentemente para quais divindades, sejam cristãs ou voduístas, os haitianos continuam pedindo aos espíritos que os unam novamente para salvar o país do caos.

Ainda não se tem dados reais, mas estimativas contabilizam 100 mil mortos, frente à magnitude do terremoto. E o Brasil, que tem assumido com a ONU uma missão de paz no país, tem o desafio agora de mostrar ao mundo a que foi de fato para o Haiti. Malgrado a morte de militares brasileiros em atividade e de Zilda Arns, da Pastoral da Criança, órgão da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, a hora é de pensarmos no Haiti e rezarmos pelo Haiti, como vaticinou a canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Pensarmos no Haiti pelo exemplo que nos deram os negros haitianos de resistência contra a escravidão, contra a opressão, contra o colonialismo, contra as ditaduras. Rezarmos pelo Haiti para que esse povo negro renasça cada vez mais resistente. Esta catástrofe só piora a vida dos haitianos, o Haiti terá mais dificuldades de sair do primeiro lugar de país mais pobre das Américas. A ajuda internacional deverá ser contínua até a sua reconstrução terminar, seja ela social ou de infra-estrutura.

Recentemente tenho ouvido muito o cantor haitiano BélO. Adquiri seu cd "Reférence" no dia de seu show no Festival de Músicas Mestiças, evento comentado no último post. Em uma das canções mais belas do álbum, o cantor e compositor, que também é voluntário em projetos sociais da ONU, fala em recuperar o Haiti dos ferimentos depois de muito tempo de espoliação e subdesenvolvimento.

"Ayti leve" é cantada em crioulo haitiano, de difícil tradução, mas a mensagem é compreensível, porque no encarte BélO, em francês, explica que a canção é um chamamento para que todos assumam a responsabilidade de redenção do país. Tomara que esta música se junte ao hino, aos cânticos religiosos de santos e vodus para salvar o país. O Haiti não é aqui, mas está tão perto de nossas desigualdades, de nossas diásporas, de nossas lutas que é difícil não sermos solidários aos nossos irmãos de lá.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Centro de Música Negra


O projeto de Carlinhos Brown de revitalizar o Mercado do Ouro com a criação do Museu du Ritmo ainda não chegou ao ápice de sua inquietação como produtor midiático. O espaço é uma opção já consolidada de shows na cidade, mas a ideia de transformá-lo em um centro cultural que faça jus ao nome que ele batizou só começou a ganhar fôlego com um evento que, a meu ver, foi o melhor de música de 2009.

O Festival de Músicas Mestiças, ocorrido em novembro, deu o tom do que pode ser a programação do futuro Centro de Música Negra no QG do Brown e, assim, resgatar aquela área do Comércio como espaço de sons e ritmos negro-africanos.

O Mercado do Ouro era nos séculos XVIII e XIX um dos centros de abastecimento mais movimentados de Salvador, pois ali existia o Cais do Ouro, lugar de desembarque de mercadorias dos navios. A concentração de trabalhadores braçais negros era evidente devido à própria lógica do sistema escravista necessitar de seus serviços como carregadores.

Mas nem só de labuta viviam os escravos. Nos interstícios da sociedade repressora, eles se divertiam. A música ecoava pela feira, pelo mercado, pelos becos... e nada podia impedir, embora posturas municipais tivessem tentado, que ela fosse registrada na memória das pessoas que por ali passavam.

A diáspora negro-africana resultou males irreparáveis, mas a resistência escrava usou de suas estratégias para que a África de seus ancestrais não afundasse com os milhares de corpos na travessia atlântica. Aos sobreviventes e resistentes, coube a reinvenção em terra estrangeira de suas tradições. O samba, o jazz, o blues, o hip hop, o soul, o funk, o rhythm'n'blues, a salsa, a rumba, o reggae são patrimônio de todos nós, mas tem algo que não escapará à sua criação: a África negra.

A intervocalidade foi a marca deste Festival. O encontro de vozes até então inédito nos fez ter a certeza de que elas já tinham se cruzado em algum instante pelo Atlântico negro. Tcheka, cantor de ritmos de Cabo Verde, como o funaná e o batuque, com Mariene de Castro e seu samba-de-roda do Recôncavo; Les Tambours de Brazza, grupo instrumental, com Carlinhos Brown e seus timbaus e atabaques; BélO, cantor do Haiti e seu estilo afropop, com Margareth Menezes na mesma pegada sonora; Mounira Mitchala, do Chade, com sua performance vocal e percussiva interagindo com o Olodum e, Tiken Jah Fakoly, reggaeman da Costa do Marfim e Senegal, com o nosso Lazzo Matumbi.

Tudo isso foi encanto para os ouvidos. Com a criação e efetivo funcionamento do Centro de Música Negra a nossa expectativa é de que essa experiência não seja apenas uma eventualidade, mas que seja permanente. Se temos o Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA como referência em pesquisa acadêmica e o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, atualmente com exposição sobre o Benin, o projeto de Carlinhos Brown deverá ser o primeiro no Brasil com este formato.

O Governo do Estado criou em 1993, no Parque do Abaeté, a Casa da Música. Seu acervo audiovisual e bibliográfico é pequeno e não houve um acompanhamento sistemático das produções realizadas nos últimos anos. Sua estrutura é defasada em relação aos novos recursos tecnológicos de exposição midiática e museológica, nem conta com uma programação que atraia o público. A música afro-baiana tão rica em compositores, instrumentistas, intérpretes, grupos e produtores merece uma inserção diferente nessa comunidade transatlântica de música negra ancorando em Salvador esse centro cultural. O primeiro passo já foi dado: o Festival de Músicas Mestiças e a abertura do Centro com uma mostra de vídeos sobre cada ritmo e seus artistas mais expressivos. O segundo só depende de patrocinadores e dos governos. Queremos no terceiro visitar o projeto inteiro para deleite e conhecimento de nossa ancestralidade musical.


Margareth Menezes e BélO

Tiken Jah Fakoly e Lazzo Matumbi


Mounira Mitchala e Olodum

terça-feira, 10 de novembro de 2009

"Besouro" não voa, só ensaia


"Besouro", de João Daniel Tikhomiroff, é um filme que atrai seu interesse e trai sua expectativa. Neste último caso, a traição não chega a ser traumática, mas a sensação é de que o filme poderia dar mais saltos do que o próprio protagonista.

Baseado em narrativas orais sobre o capoerista negro Manoel Henrique Pereira, conhecido por Besouro, o primeiro longa-metragem do premiadíssimo diretor publicitário João Daniel segue a linha de produção de filmes, comum no Brasil dos últimos cinco anos, que tem dado certo: menos diálogo, mais ação. E no caso de "Besouro" mais ainda. Primeiro, devido ao elenco ser quase todo de atores amadores ou com pouca experiência de cinema, mesmo com preparação de Fátima Toledo, que tira leite de pedra e dá bons resultados como em "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, outro diretor egresso da Publicidade. Os atores não sustentariam o filme com mais fala e menos movimento de cena. Segundo, por ser uma história de capoeira, não se imaginaria um roteiro sem evoluções de "meia-luas" e "rabos-de-arraia".

A escolha de um mestre-de-capoeira, Ailton Carmo, para representar o "herói negro", foi um tento, por conta de sua elasticidade corporal e compleição física apropriadas para as cenas de ação. A performance gestual de Ailton é ressaltada pela coreografia aérea. O que nele tem de mudez, Irandhir Santos, o Quaderna de "Pedra do Reino" (microssérie da Rede Globo), tem de verbosidade quase histriônica, quando, durante todo o filme, obsessivamente caça Besouro para matar, por estar destruindo a fazenda de seu patrão. Sua participação garante a veia dramática e atuante da fala.

A construção do herói pelo diretor é sincera, sem a grandiloquência dos heróis gregos, mas que coincide com a proteção divina, nesse caso baiano, dos orixás. Ele mesmo é visto como um semi-deus por voar e ser invísivel aos olhos de seus perseguidores. A história tem hiatos de narratividade que compromete um tanto o produto final, mas que se salva em parte por ter sido muito bem acabado com os recursos de efeitos visuais. A trilha sonora integrada por Nação Zumbi, Naná Vasconcelos e Gilberto Gil é mais discursiva do ponto de vista de uma idealização do herói. As letras e os arranjos das músicas são como narrativas vocais do que poderia ter sido a imagem em si do filme.

É neste ponto que está a decepção pela falsa expectativa que o filme nos dá. Ao tempo que encanta nossos olhos e ouvidos, nos frustra porque, mesmo que o roteiro seja criativo na reinvenção das lendas em torno de Besouro, não avança e nem fecha certas cenas que são seminais na dramatização da tomada de consciência do personagem contra a exploração do coronel. Isto fica mais evidente nos personagens "mortais" do que no do "imortal" Besouro.

Pai Alípio (Macalé), Chico Canoa (Leno Sacramento) e Quero Quero (Anderson Santos de Jesus)dão mais veracidade a uma perfomatividade negra combativa do que Besouro, quando reagem sem uso de artifícios à subordinação social vigente no engenho de açúcar.

Sua morte pela faca de ticum, a única forma de quebrar o encanto do corpo fechado, só termina a participação de Besouro no filme. Nem seu filho pequeno, que seria a encarnação do mito do pai, dá continuidade ao ideal de luta em cuja ação Besouro poderia ser mais crível. A solução do diretor foi transformar o menino em futuro vingador da morte do capoeirsta, quando em uma das cenas mais emblemáticas, flagra em slow motion os olhos dele mirando o coronel matador. Vingança por vingança, matar por matar, não resolve o problema da exploração, ela só agudiza a tensão social.

Quem dá a mensagem no final, recuperando assim (ou tentando recuperar) o que o mito de Besouro faz circular nas rodas de capoeira e que no filme ficou comprometido pela falta de ênfase no discurso afirmativo, é o Chico Canoa, que mesmo com as pernas defeituosas, quebradas em uma reação aos capangas da fazenda, ensina o filho de Besouro os primeiros passos da capoeira e, assim, de fato a consagrar a herança simbólica do pai pela ação de uma arma de resistência escrava.

O filme constou da lista dos elegíveis para representar o Brasil na seleção de melhor filme estrageiro no Oscar 2010. O Ministério da Cultura fez bem em não ter escolhido "Besouro", mas meteu os pés pelas mãos ao indicar "Salve Geral", de Sérgio Rezende.

O importante é que o filme tem seguido como um dos favoritos do público, se tomarmos a bilheteria alta em Salvador. Por curiosidade, devido ao apelo publicitário dos efeitos visuais à la "O tigre e o dragão", de Ang Lee, ou mesmo por identificação dos baianos com a capoeira e as referências à cultura da Bahia (as locações são da Chapada Diamantina), "Besouro" vale pela redescoberta do personagem-tema e sua versão fabular. Como herói, precisaria mais um pouco de força para voar mais alto.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O Iraque é aqui!

Gays enforcados no Iraque: homofobia mata

Depois de uma Parada Gay animada no dia 25 outubro, onde e quando todos e todas deram pinta sem o olhar de reprovação dos moralistas de plantão, nem o cacetete da repressão policial, eis que na semana seguinte um crime mancha a bandeira colorida com o sangue da intolerância.

A brutalidade com que foi assassinado Jorge Pedra, jornalista e apresentador de programa na Tv Salvador, é capaz de nos deixar impactados, mas não impassíveis. O Grupo Gay da Bahia bradou e a Prefeitura já autuou três hotéis que na verdade funcionavam como motéis e não registravam os hóspedes.

A lista de homossexuais mortos por homícidio ou latrocínio na Bahia já chega a quase vinte desde o início do ano, muitas vezes sem a prisão dos criminosos e que podem estar à solta, caçando mais um gay para o deleite de sua mente doentia.

Os comentários do público nas ruas e de leitores nas matérias dos jornais locais apontam o jornalista como o culpado pela própria morte. Isso não resolve o caso, mesmo que o assassino seja preso e confesse o crime, porque Jorge não estará vivo para se defender do preconceito e da homofobia. A violência anti-homossexual já é um caso de segurança pública nacional.

Escolher bem seus parceiros sexuais não é garantia de vida. É certo que o garoto de programa já foi para o hotel com a intenção de roubar ou/e matar, mas quantos crimes passionais entre heterossexuais e mesmo entre gays casados de longo relacionamento estampam as páginas policiais?

Por sinal, noticia-se mais casos de mortes entre heteros do que entre homossexuais, pelo fato mesmo de a família e amigos de muitos gays não-assumidos ocultarem a motivação do crime para preservar a honra de todos.

A ousadia de um gay não é a mesma de um hetero. Ela é mais arriscada, porque numa sociedade machista e homofóbica não lhe é dada concessão sem que não haja humilhação e discriminação. Isso antes, durante e depois de ser morto. Tratamento de expurgação sexual e limpeza social.

Neste caso de Jorge Pedra, sendo ele cliente assíduo do hotel onde morreu, a recepção não se preocupou em registrar o nome do homem que o acompanhava. Sendo VIP, merecia segurança e atenção do estabelecimento, mas assim como o michê, o gerente do Democrata só tinha interesse no dinheiro de Jorge. Era certo.

Depois de consumado o crime, os reais que Jorge ganhava para mostrar caras e bocas de gente do high society baiano não valeram os minutos de fama e sucesso, não por acaso nome de seu programa, que ele teve nos Se Liga Bocão e Na Mira da televisão como mais uma "bicha morta". Só a família e poucos amigos compareceram ao enterro. Ricos e famosos sumiram.

Preocupa-me muito a imagem de permissividade sexual em Salvador divulgada entre os gays brasileiros e estrangeiros. Aqui todo mundo gosta do babado e faz sem comedimento. É esta a ideia que se tem dos homossexuais (e heteros) baianos, mas não se atentam para o 1º lugar ocupado pela Bahia em mortes por homofobia. Se há ligação direta entre uma coisa e outra, não é possível afirmar, mas que aqui a caça e o abate de "viado" são recorrentes, não tenho dúvidas.

No Iraque, segundo relatório mais recente do Human Rights, homossexuais são perseguidos e exterminados por extremistas religiosos. Os corpos são jogados no lixo com inscrição de "pervertidos" no peito ou enforcados e expostos em praça pública. Adolf Hitler perseguiu judeus homossexuais, que eram identificados nos campos de concentração com um triângulo rosa na roupa. Estima-se que 50.000 foram presos e 10.000 foram mortos.

Esperar pela prisão do assassino de Jorge Pedra e ouvirmos ele falar que matou porque o jornalista queria que ele fosse passivo, como justificou sua defesa o homicida do irmão do humorista Cláudio Manoel, do Casseta e Planeta, em 2007, é jogar para a vítima mais uma vez a responsabilidade e, assim, fazer crer que a masculinidade é intocável e inatacável. Será que o cara é menos gay se for ativo? Tem gente por aí pensando assim, mas o que o dinheiro não faz, inclusive matar, para que o machão não perca sua hombridade?

O assassino de Jorge Pedra agora é mais caça do que caçador. Seu rastro está sendo seguido. E o bicho será enjaulado. A Polícia tem a obrigação de fazer isso. E nós, heteros, bi, homo, trans, o que faremos para que a intolerância não transforme nossos desejos sexuais em mais uma estatística mortal? Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, como diz Caetano Veloso, mas ninguém é obrigado a pagar pelo sentimento de culpa do outro.

Não à homofobia. Criminalização já.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

EBEL


O mini-curso que ministrei em Seabra no XIII EBEL (Encontro Baiano de Estudantes de Letras) sobre a obra de Dorival Caymmi foi realizado a contento, embora a duração, de apenas quatro horas, tenha sido insuficiente para a abordagem do tema. É sempre recorrente o interesse em discutir o tema da baianidade, mais especificamente quando se trata de Caymmi, consagrado por suas canções que representam uma “idéia de Bahia” no imaginário cultural.

Minha pesquisa sobre o compositor, que faleceu ano passado, será publicada em livro em dezembro e lançada só depois de Carnaval. Como baiano que sou, sei que janeiro e fevereiro são meses de praticar o ócio criativo, aquele tipo de descanso que é necessário na lida de um professor para planejar um novo semestre de trabalho. E quando essa pausa combina com o período de outra pesquisa sobre música afro-baiana em andamento, o prazer é duplicado, porque assim como o vendedor de cerveja que brinca e ganha dinheiro atrás do trio-elétrico, eu estarei fazendo trabalho de campo nas festas populares.

Para a atividade no EBEL, apresentei uma proposta de reflexão sobre as referências simbólicas e materiais afrodescendentes em nove canções do compositor, divididas em três temáticas: personagens (João Valentão, A Preta do Acarajé e O que é que a baiana tem?), religiosidade (Oração de Mãe Menininha, Canto de Obá e Mãe Stella) e festividade (Afoxé, Festa de Rua e Dois de Fevereiro).

A participação dos estudantes no mini-curso foi interativa, embora prejudicada pela intensa programação do evento, que impossibilitou o rendimento melhor das discussões a partir das canções selecionadas. Fico grato pela participação de todos que, mesmo em pouco tempo, dialogaram bem com o propósito do encontro. Àqueles que desejarem mais informações sobre meus projetos, estudos e leituras na linha de Literatura e Cultura Afro-Brasileira, Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, Estudos Pós-Coloniais Africanos, Música Afro-Baiana e Literatura Baiana, além é claro de Dorival Caymmi, estou sempre a postos.

Agradeço a meu amigo Prof. Gildeci Leite pela recepção. Parabenizo-o pelo entusiasmo com que lida com a literatura no Campus XXIII, estimulando intelectualmente seus alunos com debates e pesquisa sobre a produção literária baiana, especialmente sobre Jorge Amado e Ildásio Tavares, que esteve presente com sua palavra afiada e bem-humorada sobre si mesmo e os outros.

Como orientador de pesquisa, dou nota 10 a meu bolsista Cleber Xavier, que foi elogiado pela comunicação "Edson Gomes: reggae e ativismo negro na Bahia", fruto de nossas discussões sobre música afro-baiana. Aos poucos, nasce um pesquisador de literatura e cultura. Resta apenas perder a timidez, mas até eu fui assim quando comecei. Avante!

A alegria dos jovens estudantes de Letras de diversas universidades da Bahia e de outros estados me deu fôlego para continuar sendo mestre e companheiro deles todos. Quando, na graduação, eu fui para eventos organizados por estudantes, via poucos professores meus da UFBA, só quando eram convidados especiais... Gosto de sentir o frescor da curiosidade intelectual deles ao participar das palestras, dos cursos, das oficinas... Isso me orgulha muito de ser um profissional das Letras.

domingo, 21 de junho de 2009

Sabra e Shatila

Cena que dá título ao filme "Valsa com Bashir"


Depois de "Persépolis", longa de animação de Marjani Satrapi sobre a Revolução Islâmica no Irã em 1979, outra obra do mesmo gênero, lançada ano passado, mas só em cartaz recentemente no Brasil, revolve nossa memória histórica sobre o Oriente Médio, para não nos esquecermos de que tudo, mesmo vinte e sete, trinta anos passados, permanece presente nos conflitos entre Israel e Palestina ou entre iranianos alinhados ou contrários ao presidente Ahmadinejad.

O filme de que falo é "Valsa com Bashir", de Ari Folman, ganhador de diversos prêmios importantes mundo afora e indicado para melhor filme em Cannes e ao Oscar de melhor filme estrangeiro. É certo que isto dá credibilidade à animação, mas se não fosse a ousadia tanto temática quanto visual da produção, não teria feito trajetória tão elogiada.

O massacre de Sabra e Shatila, em Beirute, durante a Guerra do Líbano entre palestinos, libaneses e israelenses, em 1982, é o tema central do roteiro, mas ele só vai ser revelado a nossos olhos e aos olhos do narrador-personagem no final do filme. Até esse instante, o que sabemos é que o personagem, o próprio diretor, busca através da memória de seus ex-colegas de guerra, o que ele esqueceu do conflito.

Tudo começa (ou recomeça), quando um deles procura Ari para contar sobre os sucessivos pesadelos que tem todas as noites, com 26 cães raivosos perseguindo-o. Ambos sugerem que isso tem ligação com a guerra, então confirmado pelo colega que diz ter sido o responsável por matar, em uma vila do Líbano, o mesmo número de animais, que impediam um ataque-surpresa da tropa por despertarem seus moradores. Mas Folman não se lembra de muitos detalhes desse episódio tão marcante para o outro e se surpreende com isso. Passa a usar seu próprio ofício de cineasta para fazer um filme-documentário, espécie de auto-ficção, para curar ao mesmo tempo o esquecimento profundo e o trauma que o provocou.

Aos poucos, entrevistando os veteranos e um correspondente de guerra, além de um psicólogo amigo seu, ele costura as memórias dos outros para compor a sua. Esse exercício, pouco a pouco, vai revelando cenas que, embora ele não tenha participado ao lado dos ex-soldados que contam, assim mesmo dão conta das lacunas e hiatos de sua participação na guerra. Ele nem se reconhece na única foto que tirou naquela época.

O trauma deve ter sido forte para fazê-lo apagar essa cena de sua vida. Mas a revelação não tarda a emergir das águas profundas, pois mesmo que ela tenha se desvanecido, ele estava lá quando ao entrar em Sabra e Shatila testemunhou cerca de 3500 refugiados de guerra assassinados por libaneses cristãos radicais (os maronitas) que, com o propósito de ajudar os israelenses a combater os palestinos da OLP concentrados em Beirute, na verdade queriam vingar a morte de seu líder Bashir Gemayel, até então presidente do Líbano. O título do filme refere-se a cena em que um soldado israelense, atormentado com a possibilidade de ser morto por estar encurralado, sai da trincheira com o fuzil na mão atirando para todos os lados, como estivesse dançando uma valsa, tendo como fundo musical a Cantata 156 de Johann Sebastian Bach e fundo de cena o retrato gigante de Bashir num prédio.

Os israelenses, responsáveis pelos refugiados, alegam não ter percebido o plano genocida dos falangistas cristãos a tempo de impedi-los. O jovem Ari, que assim como outros tantos de sua idade, estava na guerra menos por convicção política e mais por obrigação ou diversão, acordou desse breu, sendo despertado pelo grito lancinante das mulheres vendo seus companheiros, filhos e parentes assassinados e insepultos.

Tão longe, tão perto, essas cenas lembraram-me do que aconteceu em Canudos, quando alguns entre as centenas de homens, mulheres e crianças que se renderam antes da queda do arraial foram degolados pelos próprios militares. Um crime de guerra, mas que não houve punição. Aqueles que morreram, resistindo até o fim, não foram enterrados pelo Exército. Durante dias, meses, os corpos serviram de banquete aos urubus. A fedentina era sentida à distância. Euclides da Cunha, em "Os Sertões", resumiu em uma frase, o massacre que foi também Canudos: "Aquilo não era uma campanha, era uma charqueada".

Em Mugonero, região montanhosa de Ruanda, uma chacina entre tantas outras do genocídio praticado pelos hutus contra os tutsis, é descrita por Philip Gourevitch em seu livro "Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias". Em templo e hospital adventistas, tutsis foram se proteger do ataque. Sentiam-se protegidos por pensarem que as milícias respeitariam a igreja, mas o pastor-líder dos Adventistas do Sétimo Dia, quando o cerco apertou, facilitou a fuga de alguns hutus e avisou aos tutsis que não podia fazer nada para salvá-los. "Já foi encontrada uma solução para o seu problema. Vocês devem morrer. (...) Deus não quer mais vocês", vaticinou o pastor. Em nome de Deus, 2 mil refugiados foram condenados ao extermínio por serem tutsis.

O filme de Ari Folman reavivou-me de imediato esses episódios, ao tempo que colocou na lista de meus assombros do mundo, o massacre de Sabra e Shatila, que eu não conhecia. Parecendo sair de um pesadelo, para outro pior, porque vem duplicado, daquilo que viveu e esqueceu e daquilo que viveu e se lembrou, o personagem aparece catártico diante do verdadeiro inferno que foi aquela guerra. É sua última aparição antes dos créditos finais, assim como a última cena em animação, com as mulheres se aproximando dele. Corte. Na sequência seguinte, ele usa imagens de uma reportagem feita à época como se fosse sua visão, num recurso conhecido por "câmera subjetiva" (veja aqui).

Fazendo percurso inverso de "Persépolis", "Valsa para Bashir" foi adaptado para graphic novel, gênero narrativo em quadrinhos, espécie de romance ilustrado para adultos. O trabalho de Marjani Satrapi merece um comentário especial em outro post, mas foi citado aqui pela proximidade tanto temática, quanto narrativa, na medida em que, sobre o primeiro motivo, ambos tratam de temas ligados a conflitos étnicos e políticos em uma região e num contexto muito próximos. Já o segundo motivo, diz respeito à escrita autobiográfica de seus autores, como sujeitos testemunhais dos episódios que narram.