
domingo, 14 de março de 2010
O Colegial - conto

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Pensemos no Haiti: post scriptum
Outra fala desagradável foi a de Gerge Samuel Antoine, cônsul do Haiti no Brasil que, sem saber que estava sendo gravado, confessou a uma repórter do SBT que "a desgraça de lá está sendo uma boa pra gente aqui, fica conhecido. Acho que de, tanto mexer com macumba, não sei o que é aquilo... O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano lá tá f...".
O presidente Barack Obama por meio de seus assessores disse que o pensamento do pastor extremista não corresponde ao do governo e que dará apoio total ao Haiti. O cônsul, que é católico, reafirmou à repórter a sua opinião e disse ser a pessoa mais indicada ao cargo. Pasmem! Esse diplomata merece perder suas credenciais no Brasil.
A intolerância em uma situação como essa não vai ajudar as vítimas nem ressuscitar os mortos. A fala dos dois bestializados senhores só demonstra que o racismo, especialmente contra o negro e suas africanidades, ainda não foi expurgado das mentes das pessoas e que as força a cometer desatinos perigosos. Será que esse Deus também é racista? Se assim for, é pior do que pintam do Diabo.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Pensemos no Haiti

O terromoto que se alastrou pelo país, completa o caos político, econômico e social em que ele se viu engolfado nos últimos anos. O Haiti povoa meu imaginário como o lugar da resistência anti-escravista e anti-colonial. Aprendi ainda jovem nas aulas de História que foi lá, no século XIX, mais precisamente em 1804, depois de doze anos de revolução, que Toussaint Louverture declarou a independência do Haiti, a primeira nação negra livre das Américas.
A insurreição começou ainda século no XVIII, em 1791, em uma cerimônia de vodu, na localidade de Bwa Kayiman conduzida por Cécile Fatiman, uma manbo, mãe-de-santo, e duzentos fiéis. Neste evento, os espíritos ancestrais convocaram os negros para uma experiência libertária contra opressão escrava jamais vista até então no continente americano e que se transformou em referência para o afrocentrismo e outros movimentos negro-africanos.
Essa relação entre religiosidade e resistência que resultou na vitória dos negros está presente nos valores nacionais haitianos, como no hino nacional, que evoca os ancestrais a ajudar na condução e no fortalecimento da nação.
O culto do vodu foi o que amalgamou todos os escravos na luta pela liberdade, fraternidade e igualdade, valores em voga na época inspirados na Revolução Francesa e que estimularam os colonizados a fazerem valer o que aprendiam com os próprios franceses.
Uma das matérias do Folha Online que li, reproduziu o depoimento do antropólogo brasileiro Omar Ribeiro Thomaz, que tive a oportunidade de conhecer e participar de um curso seu no CEAO sobre Haiti e Moçambique em 2003. Ele está fazendo pesquisa em Porto Príncipe com estudantes universitários da Unicamp. A reação dos haitianos diante da tragédia, segundo o professor, é entoar cânticos religiosos. Independentemente para quais divindades, sejam cristãs ou voduístas, os haitianos continuam pedindo aos espíritos que os unam novamente para salvar o país do caos.
Ainda não se tem dados reais, mas estimativas contabilizam 100 mil mortos, frente à magnitude do terremoto. E o Brasil, que tem assumido com a ONU uma missão de paz no país, tem o desafio agora de mostrar ao mundo a que foi de fato para o Haiti. Malgrado a morte de militares brasileiros em atividade e de Zilda Arns, da Pastoral da Criança, órgão da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, a hora é de pensarmos no Haiti e rezarmos pelo Haiti, como vaticinou a canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Pensarmos no Haiti pelo exemplo que nos deram os negros haitianos de resistência contra a escravidão, contra a opressão, contra o colonialismo, contra as ditaduras. Rezarmos pelo Haiti para que esse povo negro renasça cada vez mais resistente. Esta catástrofe só piora a vida dos haitianos, o Haiti terá mais dificuldades de sair do primeiro lugar de país mais pobre das Américas. A ajuda internacional deverá ser contínua até a sua reconstrução terminar, seja ela social ou de infra-estrutura.
Recentemente tenho ouvido muito o cantor haitiano BélO. Adquiri seu cd "Reférence" no dia de seu show no Festival de Músicas Mestiças, evento comentado no último post. Em uma das canções mais belas do álbum, o cantor e compositor, que também é voluntário em projetos sociais da ONU, fala em recuperar o Haiti dos ferimentos depois de muito tempo de espoliação e subdesenvolvimento.
"Ayti leve" é cantada em crioulo haitiano, de difícil tradução, mas a mensagem é compreensível, porque no encarte BélO, em francês, explica que a canção é um chamamento para que todos assumam a responsabilidade de redenção do país. Tomara que esta música se junte ao hino, aos cânticos religiosos de santos e vodus para salvar o país. O Haiti não é aqui, mas está tão perto de nossas desigualdades, de nossas diásporas, de nossas lutas que é difícil não sermos solidários aos nossos irmãos de lá.
domingo, 13 de dezembro de 2009
Centro de Música Negra
O Festival de Músicas Mestiças, ocorrido em novembro, deu o tom do que pode ser a programação do futuro Centro de Música Negra no QG do Brown e, assim, resgatar aquela área do Comércio como espaço de sons e ritmos negro-africanos.
O Mercado do Ouro era nos séculos XVIII e XIX um dos centros de abastecimento mais movimentados de Salvador, pois ali existia o Cais do Ouro, lugar de desembarque de mercadorias dos navios. A concentração de trabalhadores braçais negros era evidente devido à própria lógica do sistema escravista necessitar de seus serviços como carregadores.
Mas nem só de labuta viviam os escravos. Nos interstícios da sociedade repressora, eles se divertiam. A música ecoava pela feira, pelo mercado, pelos becos... e nada podia impedir, embora posturas municipais tivessem tentado, que ela fosse registrada na memória das pessoas que por ali passavam.
A diáspora negro-africana resultou males irreparáveis, mas a resistência escrava usou de suas estratégias para que a África de seus ancestrais não afundasse com os milhares de corpos na travessia atlântica. Aos sobreviventes e resistentes, coube a reinvenção em terra estrangeira de suas tradições. O samba, o jazz, o blues, o hip hop, o soul, o funk, o rhythm'n'blues, a salsa, a rumba, o reggae são patrimônio de todos nós, mas tem algo que não escapará à sua criação: a África negra.
A intervocalidade foi a marca deste Festival. O encontro de vozes até então inédito nos fez ter a certeza de que elas já tinham se cruzado em algum instante pelo Atlântico negro. Tcheka, cantor de ritmos de Cabo Verde, como o funaná e o batuque, com Mariene de Castro e seu samba-de-roda do Recôncavo; Les Tambours de Brazza, grupo instrumental, com Carlinhos Brown e seus timbaus e atabaques; BélO, cantor do Haiti e seu estilo afropop, com Margareth Menezes na mesma pegada sonora; Mounira Mitchala, do Chade, com sua performance vocal e percussiva interagindo com o Olodum e, Tiken Jah Fakoly, reggaeman da Costa do Marfim e Senegal, com o nosso Lazzo Matumbi.
Tudo isso foi encanto para os ouvidos. Com a criação e efetivo funcionamento do Centro de Música Negra a nossa expectativa é de que essa experiência não seja apenas uma eventualidade, mas que seja permanente. Se temos o Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA como referência em pesquisa acadêmica e o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, atualmente com exposição sobre o Benin, o projeto de Carlinhos Brown deverá ser o primeiro no Brasil com este formato.
O Governo do Estado criou em 1993, no Parque do Abaeté, a Casa da Música. Seu acervo audiovisual e bibliográfico é pequeno e não houve um acompanhamento sistemático das produções realizadas nos últimos anos. Sua estrutura é defasada em relação aos novos recursos tecnológicos de exposição midiática e museológica, nem conta com uma programação que atraia o público. A música afro-baiana tão rica em compositores, instrumentistas, intérpretes, grupos e produtores merece uma inserção diferente nessa comunidade transatlântica de música negra ancorando em Salvador esse centro cultural. O primeiro passo já foi dado: o Festival de Músicas Mestiças e a abertura do Centro com uma mostra de vídeos sobre cada ritmo e seus artistas mais expressivos. O segundo só depende de patrocinadores e dos governos. Queremos no terceiro visitar o projeto inteiro para deleite e conhecimento de nossa ancestralidade musical.
Margareth Menezes e BélO
Tiken Jah Fakoly e Lazzo Matumbi
Mounira Mitchala e Olodum
terça-feira, 10 de novembro de 2009
"Besouro" não voa, só ensaia

A construção do herói pelo diretor é sincera, sem a grandiloquência dos heróis gregos, mas que coincide com a proteção divina, nesse caso baiano, dos orixás. Ele mesmo é visto como um semi-deus por voar e ser invísivel aos olhos de seus perseguidores. A história tem hiatos de narratividade que compromete um tanto o produto final, mas que se salva em parte por ter sido muito bem acabado com os recursos de efeitos visuais. A trilha sonora integrada por Nação Zumbi, Naná Vasconcelos e Gilberto Gil é mais discursiva do ponto de vista de uma idealização do herói. As letras e os arranjos das músicas são como narrativas vocais do que poderia ter sido a imagem em si do filme.
É neste ponto que está a decepção pela falsa expectativa que o filme nos dá. Ao tempo que encanta nossos olhos e ouvidos, nos frustra porque, mesmo que o roteiro seja criativo na reinvenção das lendas em torno de Besouro, não avança e nem fecha certas cenas que são seminais na dramatização da tomada de consciência do personagem contra a exploração do coronel. Isto fica mais evidente nos personagens "mortais" do que no do "imortal" Besouro.
Pai Alípio (Macalé), Chico Canoa (Leno Sacramento) e Quero Quero (Anderson Santos de Jesus)dão mais veracidade a uma perfomatividade negra combativa do que Besouro, quando reagem sem uso de artifícios à subordinação social vigente no engenho de açúcar.
Sua morte pela faca de ticum, a única forma de quebrar o encanto do corpo fechado, só termina a participação de Besouro no filme. Nem seu filho pequeno, que seria a encarnação do mito do pai, dá continuidade ao ideal de luta em cuja ação Besouro poderia ser mais crível. A solução do diretor foi transformar o menino em futuro vingador da morte do capoeirsta, quando em uma das cenas mais emblemáticas, flagra em slow motion os olhos dele mirando o coronel matador. Vingança por vingança, matar por matar, não resolve o problema da exploração, ela só agudiza a tensão social.
Quem dá a mensagem no final, recuperando assim (ou tentando recuperar) o que o mito de Besouro faz circular nas rodas de capoeira e que no filme ficou comprometido pela falta de ênfase no discurso afirmativo, é o Chico Canoa, que mesmo com as pernas defeituosas, quebradas em uma reação aos capangas da fazenda, ensina o filho de Besouro os primeiros passos da capoeira e, assim, de fato a consagrar a herança simbólica do pai pela ação de uma arma de resistência escrava.
O filme constou da lista dos elegíveis para representar o Brasil na seleção de melhor filme estrageiro no Oscar 2010. O Ministério da Cultura fez bem em não ter escolhido "Besouro", mas meteu os pés pelas mãos ao indicar "Salve Geral", de Sérgio Rezende.
O importante é que o filme tem seguido como um dos favoritos do público, se tomarmos a bilheteria alta em Salvador. Por curiosidade, devido ao apelo publicitário dos efeitos visuais à la "O tigre e o dragão", de Ang Lee, ou mesmo por identificação dos baianos com a capoeira e as referências à cultura da Bahia (as locações são da Chapada Diamantina), "Besouro" vale pela redescoberta do personagem-tema e sua versão fabular. Como herói, precisaria mais um pouco de força para voar mais alto.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
O Iraque é aqui!
Gays enforcados no Iraque: homofobia mataDepois de uma Parada Gay animada no dia 25 outubro, onde e quando todos e todas deram pinta sem o olhar de reprovação dos moralistas de plantão, nem o cacetete da repressão policial, eis que na semana seguinte um crime mancha a bandeira colorida com o sangue da intolerância.
Esperar pela prisão do assassino de Jorge Pedra e ouvirmos ele falar que matou porque o jornalista queria que ele fosse passivo, como justificou sua defesa o homicida do irmão do humorista Cláudio Manoel, do Casseta e Planeta, em 2007, é jogar para a vítima mais uma vez a responsabilidade e, assim, fazer crer que a masculinidade é intocável e inatacável. Será que o cara é menos gay se for ativo? Tem gente por aí pensando assim, mas o que o dinheiro não faz, inclusive matar, para que o machão não perca sua hombridade?
O assassino de Jorge Pedra agora é mais caça do que caçador. Seu rastro está sendo seguido. E o bicho será enjaulado. A Polícia tem a obrigação de fazer isso. E nós, heteros, bi, homo, trans, o que faremos para que a intolerância não transforme nossos desejos sexuais em mais uma estatística mortal? Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, como diz Caetano Veloso, mas ninguém é obrigado a pagar pelo sentimento de culpa do outro.
Não à homofobia. Criminalização já.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
EBEL
O mini-curso que ministrei em Seabra no XIII EBEL (Encontro Baiano de Estudantes de Letras) sobre a obra de Dorival Caymmi foi realizado a contento, embora a duração, de apenas quatro horas, tenha sido insuficiente para a abordagem do tema. É sempre recorrente o interesse em discutir o tema da baianidade, mais especificamente quando se trata de Caymmi, consagrado por suas canções que representam uma “idéia de Bahia” no imaginário cultural.
Minha pesquisa sobre o compositor, que faleceu ano passado, será publicada em livro em dezembro e lançada só depois de Carnaval. Como baiano que sou, sei que janeiro e fevereiro são meses de praticar o ócio criativo, aquele tipo de descanso que é necessário na lida de um professor para planejar um novo semestre de trabalho. E quando essa pausa combina com o período de outra pesquisa sobre música afro-baiana em andamento, o prazer é duplicado, porque assim como o vendedor de cerveja que brinca e ganha dinheiro atrás do trio-elétrico, eu estarei fazendo trabalho de campo nas festas populares.
Para a atividade no EBEL, apresentei uma proposta de reflexão sobre as referências simbólicas e materiais afrodescendentes em nove canções do compositor, divididas em três temáticas: personagens (João Valentão, A Preta do Acarajé e O que é que a baiana tem?), religiosidade (Oração de Mãe Menininha, Canto de Obá e Mãe Stella) e festividade (Afoxé, Festa de Rua e Dois de Fevereiro).
A participação dos estudantes no mini-curso foi interativa, embora prejudicada pela intensa programação do evento, que impossibilitou o rendimento melhor das discussões a partir das canções selecionadas. Fico grato pela participação de todos que, mesmo em pouco tempo, dialogaram bem com o propósito do encontro. Àqueles que desejarem mais informações sobre meus projetos, estudos e leituras na linha de Literatura e Cultura Afro-Brasileira, Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, Estudos Pós-Coloniais Africanos, Música Afro-Baiana e Literatura Baiana, além é claro de Dorival Caymmi, estou sempre a postos.
Agradeço a meu amigo Prof. Gildeci Leite pela recepção. Parabenizo-o pelo entusiasmo com que lida com a literatura no Campus XXIII, estimulando intelectualmente seus alunos com debates e pesquisa sobre a produção literária baiana, especialmente sobre Jorge Amado e Ildásio Tavares, que esteve presente com sua palavra afiada e bem-humorada sobre si mesmo e os outros.
Como orientador de pesquisa, dou nota 10 a meu bolsista Cleber Xavier, que foi elogiado pela comunicação "Edson Gomes: reggae e ativismo negro na Bahia", fruto de nossas discussões sobre música afro-baiana. Aos poucos, nasce um pesquisador de literatura e cultura. Resta apenas perder a timidez, mas até eu fui assim quando comecei. Avante!
A alegria dos jovens estudantes de Letras de diversas universidades da Bahia e de outros estados me deu fôlego para continuar sendo mestre e companheiro deles todos. Quando, na graduação, eu fui para eventos organizados por estudantes, via poucos professores meus da UFBA, só quando eram convidados especiais... Gosto de sentir o frescor da curiosidade intelectual deles ao participar das palestras, dos cursos, das oficinas... Isso me orgulha muito de ser um profissional das Letras.
domingo, 21 de junho de 2009
Sabra e Shatila
O filme de que falo é "Valsa com Bashir", de Ari Folman, ganhador de diversos prêmios importantes mundo afora e indicado para melhor filme em Cannes e ao Oscar de melhor filme estrangeiro. É certo que isto dá credibilidade à animação, mas se não fosse a ousadia tanto temática quanto visual da produção, não teria feito trajetória tão elogiada.
O massacre de Sabra e Shatila, em Beirute, durante a Guerra do Líbano entre palestinos, libaneses e israelenses, em 1982, é o tema central do roteiro, mas ele só vai ser revelado a nossos olhos e aos olhos do narrador-personagem no final do filme. Até esse instante, o que sabemos é que o personagem, o próprio diretor, busca através da memória de seus ex-colegas de guerra, o que ele esqueceu do conflito.
Tudo começa (ou recomeça), quando um deles procura Ari para contar sobre os sucessivos pesadelos que tem todas as noites, com 26 cães raivosos perseguindo-o. Ambos sugerem que isso tem ligação com a guerra, então confirmado pelo colega que diz ter sido o responsável por matar, em uma vila do Líbano, o mesmo número de animais, que impediam um ataque-surpresa da tropa por despertarem seus moradores. Mas Folman não se lembra de muitos detalhes desse episódio tão marcante para o outro e se surpreende com isso. Passa a usar seu próprio ofício de cineasta para fazer um filme-documentário, espécie de auto-ficção, para curar ao mesmo tempo o esquecimento profundo e o trauma que o provocou.
Aos poucos, entrevistando os veteranos e um correspondente de guerra, além de um psicólogo amigo seu, ele costura as memórias dos outros para compor a sua. Esse exercício, pouco a pouco, vai revelando cenas que, embora ele não tenha participado ao lado dos ex-soldados que contam, assim mesmo dão conta das lacunas e hiatos de sua participação na guerra. Ele nem se reconhece na única foto que tirou naquela época.
O trauma deve ter sido forte para fazê-lo apagar essa cena de sua vida. Mas a revelação não tarda a emergir das águas profundas, pois mesmo que ela tenha se desvanecido, ele estava lá quando ao entrar em Sabra e Shatila testemunhou cerca de 3500 refugiados de guerra assassinados por libaneses cristãos radicais (os maronitas) que, com o propósito de ajudar os israelenses a combater os palestinos da OLP concentrados em Beirute, na verdade queriam vingar a morte de seu líder Bashir Gemayel, até então presidente do Líbano. O título do filme refere-se a cena em que um soldado israelense, atormentado com a possibilidade de ser morto por estar encurralado, sai da trincheira com o fuzil na mão atirando para todos os lados, como estivesse dançando uma valsa, tendo como fundo musical a Cantata 156 de Johann Sebastian Bach e fundo de cena o retrato gigante de Bashir num prédio.
Os israelenses, responsáveis pelos refugiados, alegam não ter percebido o plano genocida dos falangistas cristãos a tempo de impedi-los. O jovem Ari, que assim como outros tantos de sua idade, estava na guerra menos por convicção política e mais por obrigação ou diversão, acordou desse breu, sendo despertado pelo grito lancinante das mulheres vendo seus companheiros, filhos e parentes assassinados e insepultos.
Tão longe, tão perto, essas cenas lembraram-me do que aconteceu em Canudos, quando alguns entre as centenas de homens, mulheres e crianças que se renderam antes da queda do arraial foram degolados pelos próprios militares. Um crime de guerra, mas que não houve punição. Aqueles que morreram, resistindo até o fim, não foram enterrados pelo Exército. Durante dias, meses, os corpos serviram de banquete aos urubus. A fedentina era sentida à distância. Euclides da Cunha, em "Os Sertões", resumiu em uma frase, o massacre que foi também Canudos: "Aquilo não era uma campanha, era uma charqueada".
sábado, 20 de junho de 2009
Entre Dakar e Maputo, mas para além da África
A África por ela mesma, sem limites e fronteiras coloniaisA experiência que tive a partir do contato com os dois professores africanos só confirmou o que, desde o período do mestrado e como bolsista em 2003 do VI Curso Avançado sobre Relações Étnicas, Raciais e Cultura Negra da Fábrica de Idéias, CEAO-UFBA, eu pretendia fazer como pesquisador: regressar à África, não a uma África mítica e distante, embora ela faça parte de minha ancestralidade, mas a uma África das africanidades diaspóricas nas Américas, especialmente no Brasil.
Ao ouvir do Prof. Severino Ngoenha que a emancipação africana começou na diáspora com intelectuais e artistas afrodescendentes, mas sempre tendo a África como consequência dessa luta pela libertação colonial, pensei que, dentro de minhas limitações de leituras e estudos sobre o pensamento africano, não poderia deixar de assumir meu lugar de fala nessa história.
Como pesquisador e sujeito afrodescendente, sinto-me reponsável por dar continuidade e desdobrar o legado que essa geração heróica do Harlem Renaissance, do Pan-Africanismo e de outros movimentos negros nos deixaram.
Os professores Boubacar e Severino, africanos de diferentes formações, regiões e tradições, mas igualmente experientes na reversão, desconstrução e reinscrição de valores outrora assentados sobre a África, nos conclamou para acompanhá-los nessa passagem de bastão às gerações futuras do que produzirmos hoje.
Esse chamado me fez lembrar o que o Prof. Acácio disse enfaticamente: "Não se estuda África sozinho". É certo que temos nossos interesses particulares de pesquisa, mas o diálogo e o convívio com outros pesquisadores interessados em África nos possibilitam estar sempre aprendendo sobre as Áfricas que não conhecemos, sejam as de lá, entre Dakar e Maputo, entre Cabo e Cairo; sejam as de cá, entre Havana e Salvador, entre New Orleans e Porto Príncipe.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Cláudia Cunha responde
Em postagem anterior, que teve vários acessos, amigos e colegas conheceram, através de meus comentários, o trabalho de Cláudia. Muitos me pediram informações sobre onde encontrar o cd "Responde à Roda". Tenho emprestado o meu, que inclusive é mais dos outros, porque não pára em casa. Quem liga na Educadora FM, ouve também.
Cláudia mandou para mim um e-mail sobre o post que escrevi sobre ela. Não revelei seu conteúdo antes, porque ela me segredou, à época, a assinatura de contrato com a Biscoito Fino, mas como em A Tarde de hoje, 9.4, ela revelou esta conquista, transcrevo aqui sua mensagem.
Marielson,
eu nem sei como começar. Primeiro tenho que te pedir desculpas pelo silêncio e te dizer que eu gostei tanto, foi uma surpresa tão boa, que guardei pra depois...pra qdo tivesse mais tempo e tranquilidade pra te escrever, pra ler, reler e saborear - primeiro sozinha, depois com os amigos. Mas não tive trégua!! Até em cima de um trio no carnaval eu cantei! Você soube? Eu, Manuela Rodrigues e Sandra Simões montamos um projeto chamado "três na folia" q foi selecionado pelo edital da secult. Foi uma experiência inédita pra nós e maravilhosa, mas deu um trabalho enorme!
Bem, mas é sobre você e seu texto que quero falar. Fiquei muito feliz e tocada pelo que você escreveu, por sua sensibilidade, carinho e atenção. É tão especial quando a gente recebe um retorno...qdo tem uma idéia de como essa história que é tão sua, tão ansiada ressoa no outro...obrigada por isso e saiba que vale muito pra mim.
Esse Cd vai fazer seu caminho lentamente e eu estou (tentando ficar, rsrs) tranquila em relação a isso. Tem uma coisa muito boa, que ainda não divulguei (só para os mais íntimos), mas que compartilho com você: estou assinando com a biscoito fino que vai distribuir meu cd a partir de maio, no Brasil e fora. E estou muito feliz por isso.
Deixa eu te perguntar: posso divulgar seu blog na minha lista? E não só pelo texto sobre o cd, mas porque vc escreve muito bem, é um pesquisador daqui, desenvolve um trabalho lindo, e todo mundo tem que conhecer e se orgulhar! Rsrs.Vamos mantendo contato!!Beijo grande!
Cláudia
Vida longa para sua voz, Cláudia, nossos ouvidos merecem este canto do Pará, que se baianizou e, agora, é do mundo. Salve!

