domingo, 28 de agosto de 2011

Ser Alice ou Pollyana por duas horas


Indignado
Decadência moral.
Nem no domingo a gente tem sossego com esses políticos sem-vergonhas, corruptos, insanos, imbecis...
Abro jornais e revistas e vejo esses caras tendo Ibope. Estou cansado de ler notícias de falcatruas e roubalheiras com o dinheiro público. Trabalho horrores, dou minha cota social à educação pública do País (falida ou pré-falimentar) e esses ministros, deputados, prefeitos, governadores sacaneando com o povo.
Ah, mas tem políticos bons e maus, argumentam uns. Mas o próprio Estado possibilita isso, dando brechas constitucionais para eles desfilarem sua estupidez e arrogância. Quem não é desonesto, sente, mínimo que seja, a vontade de usurpar. Ninguém é santo e o ser humano é inumano nessas horas.
Como lembrou bem Luiz Freire, esse País é "cronicamente inviável". Vou andar de bike para fugir das más notícias do dia. Dá uma de Alice ou de Pollyana por duas horas. O pior de tudo que é na rua que vemos o resultado dessa safadeza política: mendigos, menores abandonados, trânsito caótico, lixo, buraco, ladrões, postos de saúde mal-estruturados, módulos policiais desativados...
Só xingar não adianta, infelizmente.

sábado, 6 de agosto de 2011

Brutalidade a Km/h


Enquanto esperava meu carro ser lavado na concessionária onde o comprei, assistia a uma reportagem no programa Hoje em Dia, da Record, sobre violência no trânsito. Segundo a matéria, a polícia de São Paulo registra por dia 70 brigas entre condutores de veículos e pedestres. Na maioria dos casos, as agressões são verbais, mas em vários casos resultam em mortes.
Em Salvador, onde o trânsito está caótico devido à falta de infraestrutura viária para atender a demanda de milhares de carros licenciados ao mês, a ocorrência de mortes por acidentes cresce na mesma proporção.
Já me envolvi em dois acidentes sem vítimas. Na primeira, assumi meu erro, embora o outro motorista também tivesse culpa pelo fato de os faróis traseiros estarem apagados, quando frenou. A minha desatenção em estar dirigindo conversando animadamente com um amigo, além da pouca iluminação e dos buracos da via, contribui para o choque.
Desci do carro um pouco alterado devido ao susto, mas me controlei porque, independentemente de um ou outro assumir a culpa, meu seguro pagaria o estrago. Identifiquei-me, dei-lhe meu cartão de visita e segui meu caminho.
No outro caso, uma semana depois de ter recebido o carro novinho, fui atingido por uma Kombi de lotação em Bom Despacho, Ilha de Itaparica. Era antevéspera de Ano Novo, meio-dia, sinalizei para entrar na rua, mas a desatenção do outro condutor causou o acidente.
Minha reação, primeiramente era de sair do carro já brigando. Mas respirei, peguei a máquina de fotografia e comecei a registrar. Enquanto ele vociferava, dizendo que eu era o culpado por ter sinalizado já perto de entrar na via, eu justificava calmamente a minha conduta. Um amigo meu aparece e me dá apoio. Depois chegam dois policiais que também apoiam a minha versão. Tranquilo, fiz um boletim de ocorrência no posto policial, o motorista assumiu a culpa e passei meu Reveillon vivo e sem ter sido agredido.
Casos de pessoas que se agridem até a morte nas ruas do Brasil por motivos fúteis são noticiados diariamente. Antes de fechar este post, leio mais uma notícia de barbárie no trânsito: um cabeleireiro é assassinado por ter reclamado da buzina de um motorista estressado no engarrafamento.
Fato ocorrido em Salvador, me causou uma indignação tão forte que me comovi só em ler a manchete do jornal. O cabeleireiro teria dito: "Tá vendendo buzina?", ao se incomodar com a poluição sonora que o condutor fazia. Ao desafogar o tráfego, o homem teria dito que ia "pegar" a vítima. 20 minutos depois, ele retorna e cumpre a promessa.
Segundo a polícia, o dono do veículo, que pode ser o mesmo que atirou, é ex-presidiário, recém-saído da pena e com diversas passagens na polícia por roubo e receptação de carros.
O stress inicial provocado por uma pressa que ninguém sabia o porquê, deu lugar a uma outra, mais insana e inumana, a de matar uma pessoa.
É por uma dessas razões que penso cada vez menos tirar meu carro da garagem. Mas como pedestre ou ciclista, o perigo aumenta, porque o carro virou arma na mão daqueles que não nos querem na sua frente.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Meu bairro


Panorâmica do Desterro, Pelourinho, Mouraria e Saúde
a partir da cobertura de meu prédio (Clique na imagem para ampliar)


A decadência de um bairro pode ser medida pelo grau de abandono dos poderes públicos. Os moradores começam a se mudar para outros lugares que correspondam a suas expectativas de retorno aos impostos pagos.

Mas quando toda uma cidade se vê abandonada, para onde ir?

A sensação e a certeza de que Governo e Prefeitura não assumem responsabilidades institucionais para dar uma boa qualidade de vida aos habitantes de Salvador nos deixam órfãos. A quem recorrer? Câmara Municipal, Ministério Público , Ouvidoria...

Assim mesmo, a demora na resolução do problema torna difícil, senão impossível, qualquer planejamento coletivo e individual em diversas áreas, como educação, saúde, segurança, emprego e cultura.

O Centro Antigo virou de novo, depois da reforma do Pelourinho, a cereja do bolo das futuras intervenções estruturais para a Copa do Mundo. Nazaré, onde eu moro, terá um fluxo de pessoas e carros intenso, extrapolando o limite de uma mobilidade fluida e tranquila neste período.

Muito me agrada andar pelas ruas de Nazaré, especialmente Campo da Pólvora, Desterro, Jardim Baiano, Saúde e Mouraria, localidades que são integradas pela Av. Joana Angélica, mas durante os dias úteis da semana, a população flutuante atinge três vezes mais o número de seus moradores, tornando quase insuportável o bem-estar de um bairro outrora calmo, charmoso e convidativo a um passeio.

A mendicância, o tráfico de drogas, a desordem no trânsito, a falta de limpeza das ruas, as calçadas esburacadas, o comércio informal, tudo isso colabora para a fuga de moradores antigos para outros bairros.

Nasci e morei por muito tempo na Cidade Baixa, que há 25 anos, quando me mudei, já estava em estágio avançado de abandono, especialmente em Roma. Há 15 anos, eu moro em Nazaré. Primeiramente, na Ladeira da Fonte Nova; depois, na Ladeira do Desterro.

Aprendi a conviver com a degradação social e arquitetônica desta área, mas com a esperança de que, independentemente das obras da Copa na Fonte Nova e no seu entorno, a população vai voltar de novo seus olhos ao Centro Antigo pelo simbólico motivo de que é aqui que a cidade mais se identifica.

Só em imaginar que isto pode ocorrer, já sinto prazer de morar aqui.

domingo, 24 de julho de 2011

Apologia da preguiça, por Adauto Novaes


Cena clássica do cinema brasileiro: Macunaíma, interpretado
por Grande Otelo, se espreguiçando
em filme homônimo de Joaquim Pedro de Andrade


Hoje, domingo de sol, neste inverno baiano, acordo e começo a ler as notícias do dia. A morte de Amy Winehouse é destaque em todos os jornais e sites de notícias, mas que já era um fim anunciado, embora acreditássemos que ela passaria por uma outra "rehab".

Embora seja um clássico dia de descanso, ócio, preguiça e lazer, o capitalismo da indústria e do comércio impõe que trabalhadores vão à labuta e nós, consumidores, nos cansemos nas compras para dar conta do tempo que não deu tempo durante a semana para fazer.

E eu tenho muita coisa para fazer mesmo, mas todas prazerosas, porque é a realização de meus desejos e não a imposição dos outros: ir à feira comprar verduras para fazer um cozido, andar de bicicleta pela orla, tomar um café final da tarde com os amigos, encaixotar meus livros para o início da reforma de meu apartamento...

Fiquei estimulado mais ainda para fazer esse roteiro dominical depois que eu li o ensaio abaixo sobre a preguiça, que será tema de um ciclo de palestra em quatro cidades brasileiras, organizada por Adauto Novaes. Pena que não vem a Salvador, porque seria uma excelente oportunidade para nós baianos refletirmos sobre uma baianidade "preguiçosa" (e perniciosa, preconceituosa) que tentam nos colar e que achamos ser mesmo nossa identidade.

Precisamos mostrar que a "nossa" preguiça tem um nível muito mais refinado de compreensão do que essas piadinhas de botequim de novela das oito, como vi nesta semana em Insensato Coração.

Mestre Caymmi é que sabia das coisas... e viveu quase cem anos.



São Paulo, domingo, 24 de julho de 2011


ENSAIO

Apologia da preguiça

O sequestro do nosso tempo pelo trabalho
RESUMO
Em tempos de tecnociência, permanece irrealizada a utopia da libertação do homem pelas máquinas: nunca se trabalhou tanto, e o tempo livre jamais esteve tão fora da pauta. Ora estigmatizado na ordem produtiva, ora exaltado na tradição filosófica, o preguiçoso é hoje o símbolo do tempo livre para o pensamento.

ADAUTO NOVAES
O trabalho deve ser maldito, como ensinam as lendas sobre o paraíso, enquanto a preguiça deve ser o objetivo essencial do homem. Mas foi o inverso que aconteceu. É esta inversão que gostaria de passar a limpo.
Malevitch, "A Preguiça como Verdade Definitiva do Homem"

SABE-SE QUE uma única palavra é suficiente para arruinar reputações e, entre todas, preguiça é uma das mais suspeitas e perigosas. Ao longo dos séculos, foi carregada de significações contraditórias e impressionantes variações.
Dela decorre longo cortejo de acusações bizarras, mas também sabe ser tema de obras de arte, poesia, romance, pinturas, reflexões filosóficas: o preguiçoso é indolente, improdutivo, nostálgico, melancólico, indiferente, distraído, voluptuoso, incompetente, ineficaz, lento, sonolento, silencioso. Preguiça e trabalho guardam um misterioso parentesco, quase simétrico e especular.
Para o preguiçoso, "é preciso ser distraído para viver" (Paul Valéry), afastar-se do mundo sem se perder dele; exatamente por isso, é acusado de não contribuir para o progresso.
Além de praticar crime contra a sociedade do trabalho, o preguiçoso comete pecado capital. Pela lógica do mundo do trabalho e da igreja, ele deve sentir-se culpado, pagar pelo que não faz.
Mais: pensadores como Lafargue, Stevenson, Bertrand Russell, Jerome K. Jerome, Marx e Samuel Johnson apostaram no desenvolvimento técnico como possibilidade de liberação do trabalho. Erraram: na era da tecnociência, nunca se trabalhou tanto e nunca se pensou tão pouco. Assim, o espírito tende a se tornar coisa supérflua.

O QUE FAZER Ao pensar sobre o fazer, o ocioso pode prestar um grande serviço e ajudar a responder à velha questão moral: o que devo fazer? Dependendo da resposta, teremos diferentes definições do que seja o homem, a política, as crenças, o saber, nossa relação com o mundo, e, principalmente, nossa relação com o trabalho. A resposta pode nos dizer não apenas o que fazemos mas também o que o trabalho faz em nós.
Hoje, maravilhosas máquinas "economizam" o trabalho mecânico, mas criam novos problemas: primeiro, uma espécie de intoxicação voluntária, isto é, "mais a máquina nos parece útil, mais ela nos torna incompletos" (Valéry).
A máquina governa quem a devia governar; daí decorre o segundo problema, bem mais complexo: tantas potências auxiliares mecânicas tendem a reduzir "nossas forças de atenção e de capacidade de trabalho mental", o que se relaciona à impaciência, à rapidez e à volatilidade nunca antes vistas.
Assim escreveu Paul Valéry (1871-1945): "Adeus, trabalhos infinitamente lentos, catedrais de 300 anos cuja construção interminável acomodava curiosas variações e enriquecimentos sucessivos... Adeus, perfeições da linguagem, meditações literárias e buscas que tornavam as obras ao mesmo tempo comparáveis a objetos preciosos e a instrumentos de precisão!
[...] Eis-nos no instante, voltados aos efeitos de choque e contraste, quase obrigados a querer apenas o que ilumina uma excitação de acaso. Buscamos e apreciamos apenas o esboço, os rascunhos. A própria noção de acabamento está quase apagada".

MONTAIGNE Valéry retoma uma tradição. Lemos em Montaigne (1533-92) que "a alma que não tem um fim estabelecido perde-se. Porque, como se diz, estar em toda parte é não estar em lugar algum". Aqui, entendemos por alma o "trabalho teórico do espírito", potência de transformação. O que leva a alma (espírito) a se perder é o trabalho desordenado.
Habitar o próprio eu, comenta Bernard Sève, é o projeto de Montaigne: viver em repouso, longe das agitações do mundo, retirar-se da pressa do mundo "para se conquistar, passar do negotium ao otium", do negócio ao ócio.
É isso que podemos ler na inscrição que Montaigne mandou pintar nas paredes da sua torre: "No ano de Cristo de 1571, aos 38 anos, vésperas das calendas de março, dia de aniversário de seu nascimento, depois de exercer longamente serviços na Corte (Parlamento de Bordeaux) e nos negócios públicos [...] Michel de Montaigne consagrou este domicílio, este tranquilo lugar vindo de seus ancestrais, à sua própria liberdade, à sua tranquilidade, ao seu 'loisir' (otium)".
Eis que Montaigne recolhe-se ao ócio reflexivo, com um espírito criativo leve e vagabundo. Como escreve Sève, um Montaigne distante das pressões políticas e das injunções do trabalho burocrático, com o espírito já amadurecido, "construído pela vida, espírito prestes ao fecundo exercício de uma ociosidade inteligente e feliz". Mas interpretemos com cuidado esse afastamento do mundo.
Se a vida teórica aparece mais compensadora, é porque Montaigne não encontrou na vida prática -social e política-, no Parlamento de Bordeaux, aquilo que buscava. À diferença dos comuns, Montaigne não procurava satisfação no reconhecimento social e político. No ócio, preferiu a busca da verdade às coisas da política.
Sua "contemplação" teórica é discursiva, isto é, transforma-se em atos de pensamento e, portanto, em atividade prática. Nascem aí os monumentais "Ensaios".

FOUCAULT A aliança entre capital, igreja e disciplina militar para regular o trabalho tem história. Em um curso de 1973, ainda não publicado, Michel Foucault (1926-84) narra a institucionalização do trabalho através da "fábrica-caserna-convento" no final do século 19. Ele descreve as regras de uma comunidade fechada de até 400 trabalhadores: acordar às 5h, 50 minutos para toalete e café, trabalho nas oficinas das 6h10 às 20h15, com uma hora para as refeições. À noite, jantar, reza e cama às 21h. Só no sul da França, 40 mil operárias trabalhavam nessas condições.
O trabalhador é fixado no aparelho produtivo, no qual "o tempo da vida está submetido ao tempo da produção". Vemos nessa experiência uma mudança essencial que nos interessa porque se torna mais aguda e determinante no trabalho hoje: "da fixação local a um sequestro temporal". Ou melhor, da ideia de controle do espaço no trabalho à ideia de controle do tempo.
O trabalho sequestrou o tempo. Se, no século 19, o controle do tempo era apresentado ao operário como um "aprendizado de qualidades morais" que, na realidade, significava a integração da vida operária ao processo de produção, hoje o controle é aceito com naturalidade, e até mesmo desejado.
O homem se integra voluntariamente "a um tempo que não é mais o da existência, de seus prazeres, de seus desejos e de seu corpo, mas a um tempo que é o da continuidade da produção, do lucro".
A reivindicação de tempo livre tornou-se quase que palavra de ordem subversiva: "Preciso tanto de nada fazer que não me resta tempo para trabalhar", conclama Pierre Reverdy, citado no prefácio ao livro de Denis Grozdanovitch "A Difícil Arte de Quase Nada Fazer".

TRABALHO CEGO A mobilização veloz e incessante do trabalho cego não permite ao homem dizer qual é o seu destino e muito menos o que acontece. Ele não dispõe de tempo para pensar e muito menos tem consciência de que seus gestos, no trabalho, produzem muito mais do que os objetos que fabrica.
Há um excedente invisível, entendendo-se por "excedente" tudo o que não é mensurável, que produz catástrofes através do trabalho "normal e produtivo" e se manifesta na poluição, nos desastres ecológicos, no esquecimento e na desconstrução de si.
Como nos lembra Robert Musil em "O Homem sem Qualidades", foi preciso muita virtude, engenho e trabalho para tornar possíveis as grandes descobertas científicas e técnicas, graças aos sucessos dos "homens de guerra, caçadores e mercadores". Tudo isso fundado na disciplina, no senso de organização e na eficácia do trabalho, o que talvez pudesse ser resumido assim: o trabalho mecânico da produção de mercadorias pretende tomar o mundo de assalto, produzindo agitação social e frenesi econômico e consumista, dada a multiplicação de objetos "não naturais e não necessários".
Já o preguiçoso põe-se na escuta de si e do mundo que o cerca.

PENSAMENTO Talvez o mais danoso de todo esse legado para o espírito humano seja a criação de um mundo vazio de pensamento que o ocioso procura preencher. Guardo uma imagem que o poeta e filósofo Michel Deguy me fez ver à janela de seu apartamento, em Paris: um mendigo que dormia 20 horas por dia na escadaria da igreja Saint-Jacques.
Deguy narra essa experiência em um pequeno ensaio com o título "Do Paradoxo": em imagem semelhante, diz ele, também nas escadarias de uma igreja, "a 'Derelitta' de Botticelli está pelo menos sentada, parecendo meditar. Hoje, ninguém medita, como dizia Valéry na figura de M. Teste. Portanto, o mendigo talvez não esteja errado, uma vez que o fato de estar deitado nada muda [...] E quando lembro que Pascal era o pároco da igreja e cuidava dos abandonados, a comparação me perturba: os 'pobres' não são mais como eram -mas os pensadores também não. Portanto, o 'despertar do pensamento'? Nós, você e eu, não queremos dormir. Mas estamos acordados?"
O trabalho técnico, mecânico e acelerado abole o tempo do pensamento, que exige virtudes atribuídas ao preguiçoso: paciência, lentidão, devaneio, acaso -o imprevisto. Em um texto célebre, Valéry nota: "O futuro não é mais como era". Isto é, não há mais o tempo lento do pensamento, momento em que o tempo não contava. Sabemos que é na vida meditativa e lenta que o homem toma consciência da sua condição.

SERES OCULTOS Ora, como escreveu ainda Valéry, o amanhã é uma potência oculta, e o homem age muitas vezes sem o objeto visível de sua ação, como se outro mundo estivesse presente, "como se ele obedecesse a ações de coisas invisíveis ou de seres ocultos".
Essa poderia ser uma boa definição do ocioso. Coisas invisíveis e seres ocultos participando do mundo do devaneio e do pensamento. Mundo do trabalho do espírito, em contraposição ao trabalho mecânico.
As ideias e os valores, lembra-nos Maurice Merleau-Ponty (1908-61), não faltam a quem soube, na sua vida meditativa, liberar a fonte espontânea, não deliberadamente, em direção a fins predeterminados por cálculos técnicos e produtivos. Todo trabalho finito e alienado é pura perda.
Através de uma admirável reversão, o meditativo transforma a desrazão do mundo do trabalho alienado em fonte de razão. Isso porque o trabalho meditativo do ocioso é um trabalho sem finalidade, sem "telos", um trabalho sem fim. O trabalho meditante do ocioso exige muito mais trabalho do que o trabalho mecânico. O trabalho da obra de arte e da obra de pensamento pede um tempo que não pode ser medido pelo relógio.

PREGUIÇOSO Como se pode, então, pensar essa figura que sempre teve péssima reputação? Talvez uma boa definição seja a de um autor inglês, Jerome K. Jerome (1859-1927), em seu livro "Pensamentos Preguiçosos de um Preguiçoso" (1886): "O que melhor caracteriza um verdadeiro preguiçoso é o fato de ele estar sempre intensamente ocupado. De início, é impossível apreciar a preguiça se não há uma massa de trabalho diante de si. Não é nada interessante nada fazer quando não se tem nada a fazer! [...] Perder seu tempo é uma verdadeira ocupação, e uma das mais fatigantes. A preguiça, como um beijo, para ser agradável, deve ser roubada".
Jerome K. Jerome leva-nos a pensar que a preguiça não é coisa passiva. Perder o tempo mecânico dá trabalho e exige enorme atividade do espírito.
O egípcio Albert Cossery é apresentado pela revista francesa "Magazine Littéraire" como o escritor contemporâneo que celebra a preguiça como uma arma de subversão política e como um modo de resistir à impostura das potências. Para Cossery, o exercício da preguiça tem o valor da arte de viver. Mas ele distingue dois tipos de preguiçosos: os idiotas e os reflexivos.
"Um idiota preguiçoso permanece idiota!", escreve. "E um preguiçoso inteligente é quem reflete sobre o mundo no qual vive. Mais você é ocioso, mais tempo você tem tempo para refletir... Esses são os valores da preguiça, que supõe, pois, dupla recusa: nosso mundo imediato e a triste realidade."
Mas o mais radical dos libelos contra o trabalho alienado continua a ser o pequeno ensaio de Paul Lafargue (1842-1911), "O Direito à Preguiça" (1880). "Trabalhem, trabalhem, proletários, para aumentar a fortuna social e suas misérias individuais; trabalhem, trabalhem, para que, tornados mais pobres, tenham mais razões ainda para trabalhar e tornarem-se miseráveis. Essa é a lei inexorável da produção capitalista".
Para Lafargue, o trabalho é invenção relativamente recente, uma vez que os antigos gregos desprezavam o trabalho e deliciavam-se com os "exercícios corporais" e os "jogos de inteligência". Ele critica a moral cristã ao proclamar o "ganharás o pão com o suor do rosto" e ao lembrar que Jeová, "depois de seis dias de trabalho, repousou por toda a eternidade".
Robert Louis Stevenson (1850-94), na "Apologia dos Ociosos" (1877), mostra que o ócio "não consiste em nada fazer, mas em fazer muitas coisas que escapem aos dogmas da classe dominante".

MELANCOLIA A tradição relaciona a melancolia e o devaneio à preguiça. Nisso, mais uma vez, igreja e capital estão juntos. O trabalho é o grande meio que a igreja encontrou para lutar contra a melancolia e a vertigem do tempo livre. Seu lema sempre foi "Rezai e trabalhai", ou seja, só abandonar a oração quando as mãos estiverem ocupadas.
Lemos em um ensaio de Jean Starobinski sobre a melancolia -"A Erupção do Diabo-" que o trabalho tem por efeito ocupar inteiramente o tempo que não pode ser dado à oração e aos atos de devoção: "Sua função", escreve ele, "consiste em fechar as brechas por onde o demônio poderia entrar, por onde também o pensamento preguiçoso poderia escapar". Assim, o trabalho interrompe o "vertiginoso diálogo da consciência com seu próprio vazio".
A crítica que Jean-Jacques Rousseau (1712-78) faz ao trabalho não é diferente. Na sétima caminhada dos "Devaneios de um Caminhante Solitário" (1782), ele busca a solidão, mas procura trabalhar tudo o que o cerca, escolhendo o mais agradável. Não escolhe os minerais porque, escondidos no fundo da terra "para não tentar a cupidez", exigem indústria, trabalho, pena e exploração dos miseráveis nas minas.
As plantas não. A botânica é o estudo de um "ocioso e preguiçoso solitário": "Ele passeia, erra livremente de um objeto a outro, passa em revista cada flor... Há, nesta ociosa ocupação, um charme que só se sente na plena calma das paixões, o que basta para tornar a vida feliz e tranquila. Mas, quando se mistura aí um motivo de interesse ou vaidade, seja para ocupar espaços, seja para escrever livros, ou quando se quer aprender apenas para se instruir ou pesquisar as plantas apenas para se tornar professor, todo o charme da tranquilidade se desfaz; [...] no lugar de observar os vegetais na natureza, ocupa-se apenas com sistemas e métodos".
O que importa hoje, talvez, é propor a luta do progresso contra o progresso; isto é, a valorização do progresso do espírito, a valorização dos valores contra o progresso técnico, esta "ilusão que nos cega". Eleger a quietude, o silêncio e a paciência para conhecer e aprofundar indefinidamente as coisas dadas.
Eis o ócio que Karl Kraus (1874-1936) nos propõe: "Se o lugar aonde quero chegar só puder ser alcançado subindo uma escada, eu me recusarei a fazê-lo. Porque lá aonde eu quero realmente ir, na realidade já devo estar nele. Aquilo que devo alcançar servindo-me de uma escada não me interessa".

"O que importa hoje, talvez, é propor a luta do progresso contra o progresso; isto é, a valorização do progresso do espírito, a valorização dos valores"
"Além de praticar crime contra a sociedade do trabalho, o preguiçoso comete pecado capital. Pela lógica do mundo do trabalho e da igreja, deve sentir-se culpado"
"O trabalho meditativo do ocioso é sem finalidade, sem "telos", um trabalho sem fim; exige muito mais trabalho do que o trabalho mecânico"
"O trabalhador é fixado no aparelho produtivo, no qual "o tempo da vida está submetido ao tempo da produção". O trabalho sequestrou o tempo"

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Rota do Açúcar - Penedo


Atravessando o Rio São Francisco, de Alagoas para Sergipe


Casa à venda, sonhada para ser minha


Igreja e Convento Nossa Senhora dos Anjos


Pôr-do-sol à beira do Rio São Francisco, Penedo



Fim de tarde na Rocheira, à beira do rio


Hotel Colonial, à direita, onde pernoitei em frente ao rio


Vista do Rio São Francisco



Resumo em uma palavra o que senti ao chegar a Penedo, Alagoas: encantamento.

Tudo nessa cidade, que fica às margens do Rio São Francisco, me levou a ficar mais tempo do que eu desejava. Meu objetivo era atravessar o rio e pernoitar em Aracaju para, na manhã seguinte, seguir para Salvador.

As casas antigas do centro histórico mostram o quanto se pode conservar sem tirar delas o jeito especial de vida urbana que a cidade tem. Patrimônio Histórico do Brasil, Penedo é uma das jóias do Velho Chico, tanto do ponto de vista arquitetônico quanto cultural.

A vista do rio do alto do penedo, onde fica a fortaleza, é deslumbrante, mais ainda quando é emoldurado por um pôr-do-sol em tarde de céu de um azul profundo. Desci até à beira do rio para senti-lo mais verde-musgo do que à distância permitia.

Passeando pelas ruas vazias, deu uma vontade de morar ali. E não foi difícil me sentir tão dentro delas, pois encontrei uma casa de dois andares à venda. Ao entrar para conhecer, fiquei mais tentado ao saber que o valor era praticamente o de uma casa em Salvador em bairro popular, bem mais simples e menor, sem o glamour de morar numa casa tombada pelo IPHAN.

As fotos que tirei do casario reproduzem a minha tentativa de captar meu olhar de turista acidental. Pena não ter tido tempo para vagar mais pela cidade, mas ao acordar em pleno dia de comércio, fiz um percurso mais atento, porém num circuito de ruas próximas ao hotel, e tive a certeza de que ainda voltarei à Penedo para visitar não só outros pontos de sua urbanidade, mas o litoral sul de Alagoas, onde desemboca o Rio São Francisco.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Rota do Açúcar - Alagoas, parte 2


Igreja Nossa Senhora do Pilar, Pilar, Alagoas


Última parada da rota, Usina Coruripe


Usina Coruripe, Coruripe, Alagoas


Praia do Gunga, Barra de São Miguel, Litoral Sul de Alagoas


Casario de Marechal Deodoro, Alagoas


Vista do cais de Marechal Deodoro, Alagoas


Conjunto arquitetônico religioso de Marechal Deodoro, Alagoas


Prefeitura Municipal de Marechal Deodoro, Alagoas


Saí de Maceió sob uma forte chuva, com destino à Pilar, Marechal Deodoro e Coruripe. E isso prejudicou bastante a visita aos engenhos nessas cidades, especialmente Pilar, onde era mais difícil o acesso ao Engenho Lamarão. Não seria prudente embarcar nessa aventura.
Segundo um morador, a quem pedi informações sobre o engenho, naquela época de chuva nem caminhão ou trator chega ao Lamarão. Aproveitei assim mesmo para conhecer a cidade. Sua arquitetura tem muitos traços do século XIX, parecida com Cachoeira, na Bahia. Ali, nasceu Artur Ramos, um dos mais representativos estudiosos sobre relações raciais no Brasil.
Após uns cliques, segui caminho para Marechal Deodoro, primeira capital de Alagoas, e onde nasceu o militar que dá nome à cidade. A chuva começava a amenizar e o tempo entre nublado e com sol já me alegrava, dando a sensação de que a tarde não estava perdida. Pretendia fazer todas as cidades e pernoitar em Penedo.
Fiz um city tour pelo centro histórico da cidade que em termos de conservação era melhor do que Pilar. Não sei se devido à chuva, eu não pude ver melhor o casario de Pilar, mas à primeira vista e logo na entrada, o quarteirão antigo da parte alta era um brinco. Desci para o cais do rio, onde acontece a feira. Cheguei na parte da desmontagem das barracas e me surpreendi com mais prédios conservados, depois lendo uma faixa entendi o porquê de tanto cuidado: meses antes houve a visita do ministro do Turismo, que injetou recursos para restaurar as casas.
Dei uma passada no museu da cidade, uma casa baixa e não muito grande, onde nasceu Marechal Deodoro. Lá estão reunidas algumas peças domésticas do tempo em que o militar morava, fotos de duversas fases de sua carreira, dentre elas a de primeiro presidente da República.
Seguindo ao sul, a próxima parada era Coruripe. Estrada boa e recém-asfaltada, tentei compensar o tempo perdido devido à chuva e cheguei à última cidade da Rota no meio da tarde, mas quão decepcionante foi ao ver que a cidade em si não me encantou. Só pude ver um monumento na cidade, a igreja matriz, assim mesmo não muito bonita.
Meu objetivo era conhecer a Usina Coruripe, a maior proutora de açúcar e álcool do Nordeste. E determinado a cumprir a mssão traçada, bati no portão da fábrica. Queria conhecer as etapas de produção do açúcar naquela modalidade diferente da que se produzia na moita de outrora. Como era domingo, a administração estava fechada e o segurança só permitiu fotos da área externa.
Atando os fios desta Rota, coincidência ou não, mas isso é bem simbólico para a realização deste projeto de documentário, percebi que comecei a viagem visitando um engenho, o São João, em Itamaracá, um dos mais antigos de Pernambuco e o primeiro a transitar da energia de tração animal para a máquina a vapor, e terminei em Coruripe na mais atual evolução da produção de derivados da cana.
Satisfeito com a viagem até ali, mesmo com um pouco de cansaço por estar sempre dirgindo, queria conhecer Penedo, sabedor da importância histórica e cultural dela para a colonização do Nordeste a partir do Rio São Francisco.
Até lá, eu passaria por um dos litorais mais belos do mundo, onde o rio da integração nacional desemboca. Pena não ter tido tempo para visitá-lo como convicto praieiro que sou, mas o colocarei num dos meus roteiros futuros de passeio
Como ainda não cheguei em casa, a viagem ainda me reservaria bons momentos, mas esse é um post à parte. A Rota do Açúcar termina aqui a sua primeira incursão com um gosto amargo de não ter provado uma cachacinha nem uma rapadura. Talvez porque não fui aos engenhos da Paraíba, onde a produção desses produtos é atração principal desse projeto turístico maravilhosa, mas que ainda precisa de investimento realmente integrado não só entre as cidades de cada Estado e entre eles mesmos.
Valeu a aventura, agora é começar a escrever o projeto e começar a filmar o documentário.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Rota do Açúcar - Alagoas, parte 1





Na Serra da Barriga, Memorial Zumbi dos Palmares, União dos Palmares, Alagoas



Em frente à casa-grande do Engenho Inhumas, União dos Palmares, Alagoas



Casa-grande e senzala no alto e capela embaixo. Fazenda Marrecas, Maragogi, Alagoas


Quando saí de Salvador, dia 22, eu pernoitei em Maceió. Na manhã seguinte, segui para Recife. Minha intenção era fazer os engenhos de Alagoas no retorno para Salvador, a partir do dia 28.

E assim o fiz. O primeiro engenho de Alagoas foi o Marrecas, em Maragogi, litoral norte do Estado. Infelizmente cheguei já no final da tarde e não pude conhecer as praias da cidade que, segundo os roteiros, estão entre as mais lindas do Nordeste.

A Fazenda Marrecas se transformou em hotel-fazenda de boa estrutura. A casa-grande e a senzala ficam numa elevação, de onde pode se ver a capela e as instalações mais novas da propriedade. Não encontrei vestígios da moita, mas seu conjunto arquitetônico é bem vistoso quando se vê da estrada de barro que dá acesso a sua entrada principal.

Pedi autorização à recepção para conhecer o espaço mais público do hotel-fazenda, ou seja, a varanda da casa-grande e a capela, onde no momento estava ocorrendo uma missa. Fiquei satisfeito com a visita, poderia ter até me hospedado lá para aproveitar mais, no entanto, gostaria de ainda chegar à Maceió e no dia seguinte seguir para União dos Palmares.

No meio do caminho, calculando a quilometragem entre em ir para a capital ou União dos Palmares, decidi pela última, mesmo correndo o risco de trafegar por rodovias estaduais pouco conservadas. Cheguei três horas depois, numa viagem que, segundo o GPS, seria feita em duas.

União dos Palmares estava em festa de sua padroeira e as praças estavam coloridas de luzes do parque de diversão e do palco de shows musicais de axé, pagode, brega e arrocha. Depois de tomar banho e descansar um pouco, fui conhecer a festa.

Não podia atravessar a madrugada, pois de manhã cedo queria conhecer a Serra da Barriga, onde está o Memorial Zumbi dos Palmares, e o Engenho Inhumas. Como coincidentemente era também dia de feira, não encontrei o centro cultural aberto, onde nasceu o poeta Jorge de Lima.

Minha opção foi encontrar uma agência de viagens para conseguir um guia. E por sorte, achei a agência da ex-secretaria de Turismo da cidade, que me indicou um guia, Carlos, funcionário da mesma secretaria.

Muito gentil e atencioso, ele me levou primeiramente ao Engenho Inhumas, de propriedade da família de Isabel, atual secretária de Turismo, que durante uma hora ou mais nos contou sobre as histórias do engenho. A casa-grande está conservada, mas carente de uma restauração em alguns cômodos para se transformar num hotel-fazenda, intenção essa ainda em discussão entre os herdeiros.

Após essa visita, subimos a Serra da Barriga, onde, sobre seu platô, existiu o centro do maior quilombo de escravos do Brasil. No seu lugar, construiu-se o Memorial Zumbi dos Palmares. A chuva impediu um pouco a visitação, mas pude ter a noção da proposta do espaço cultural tombado pelo IPHAN. E para saudar os nossos ancestrais africanos, comemos um acarajé quentinho no término do passeio.

Ainda pretendia, no período da tarde visitar a Usina Leão, em Rio Largo, próxima à Maceió, onde eu de novo iria pernoitar. Peguei a estrada e, por não saber onde ficava a usina, entrei na cidade que tem uma paisagem do Rio Mundaú e suas corredeiras muito bonitas, além de seu casario secular ainda conservado.

Ensinaram-me o caminho certo para chegar as ruínas da antiga Usina Leão, mas o espaço reservado para visitação pela indústria moderna, que se localiza a cinco quilômetros da primeira construção movida a vapor, não foi liberado para eu entrar, porque não havia mais ninguém na administração para autorizar. No entanto, o chefe da segurança educadamente permitiu que eu fotografasse e filmasse bem rápido uma parte do prédio.

Roteiro cumprido neste dia, dormi em Maceió para na manhã seguinte conhecer os engenhos do litoral sul. No outro post, vou contar minha passagem por Pilar, Marechal Deodoro, Coruripe e Penedo.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Rota do Açúcar - Pernambuco, parte 2


Engenho Uruaé, Goiana, Pernambuco



Engenho Cueirinhas, Vicência, Pernambuco



Engenho Várzea Grande, Vicência, Pernambuco



Vista da varanda da casa-grande do Engenho Poço Comprido para a moita, à esquerda


Capela e casa-grande do Engenho Poço Comprido, Vicência, Pernambuco




Ao pegar a estrada para a Zona da Mata pernambucana, a pretensão era seguir até Goiana, dormir lá e descer direto para o norte de Alagoas e conhecer Maragoji, onde está a Fazenda Marrecas.

A primeira cidade foi Nazaré da Mata, a Terra do Maracatu Rural, maior manifestação cultural do Carnaval de Pernambuco. Esta é minha opinião. O frevo é mais forte em Recife e Olinda, mas o maracatu é o que de fato dá o tom da beleza cênica e performática da festa no Estado, além de religiosa e simbólica. Sem maracatu, não tem folia.

Ao chegar, fui logo conhecer o Parque dos Lanceiros, na entrada da cidade, onde tive a sorte de conversar com o Mestre Barachinha, que me informou tudo o que pôde contar no pouco tempo que eu tinha. Já era quase meio-dia e eu ainda precisava visitar três engenhos. A chuva era um impeditivo a mais.

No museu do Parque, visitei uma pequena exposição permanente de objetos e adereços de maracatus, assim como painéis informativos sobre os grupos. Mestre Barachinha, muito atencioso e bem informado, deu uma aula de cultura popular.

O Engenho Cueirinhas foi transformado em hotel-fazenda, com uma estrutura muito bem construída, além da casa-grande, que é o único prédio original da propriedade. A capela foi levantada depois, assim como a casa do administrador.

A dona Leonor mantém sozinha o engenho, depois que seu marido faleceu. No momento da visita, ela não estava, mas autorizou que seu caseiro, Nido, me guiasse por onde eu quisesse. E assim, fizemos. Encantei-me com a preocupação dos proprietários em manter a ambiência de uma casa antiga ao reconstituir com móveis e objetos a decoração dos cômodos.

Fiquei com vontade de passar um fim-de-semana no Engenho, que tem opções de lazer típicas de um hotel-fazenda. As refeições são servidas num imenso galpão, outrora estrebaria, e que pela gradiosidade da mesa, a comida não deve se pouca.

Como fica na beira da rodovia, numa elevação entre várias árvores, não deu para fotografar a sua fachada inteira, mas a foto da varanda dá a idéia da amplitude de sua arquitetura. Não é um dos maiores, mas toda casa-grande é simbólica e materialmente a maior casa de um engenho, assim, me senti num palacete.

No caminho para Vicência, passei pelo Engenho Várzea Grande, e como sempre, me encantei com a preservação das construções, pelo menos externamente. Neste caso, da própria casa-grande e da capela, além de verificar a existência de prédios não comuns em engenhos do século XIX, como padaria e oficina, o que indica de que houve adaptações ao longo do século XX.

Não pude entrar, pois é propriedade particular e, portanto, não tinha pedido autorização. Nem pude negociar com o caseiro uma espiadela mais de perto na casa. As fotos tiradas do lado de fora estão boas e matou minha vontade.

A partir daí, virei caçador de engenho. Tudo que era construção à beira da estrada na qual eu via uma torre, eu parava e perguntava a quem estivesse perto. Muitas só tinham mesmo a torre, mais nada, ou então ruínas irreconhecíveis de antigas moitas.

Em Vicência, minha aventura foi feita lama adentro até chegar no Engenho Poço Comprido, o único engenho tombado pelo IPHAN, segundo Jane, diretora de cultura e da associação que preserva o patrimônio artístico-cultural da cidade.

De fato, vendo o trabalho de restauração do engenho, entendi o porquê de tamanho cuidado com esse engenho. A visita foi muito bem guiada por Jane, que de forma bem didática, me explicou passo a passo a trajetória do engenho.

Embora esteja em terras de uma usina, inclusive há uma vila de trabalhadores no entorno do antigo engenho, existe uma abertura para que projetos viabilizem a manutenção do complexo.

Algumas curiosidades dão ao Poço Comprido uma beleza especial. Primeiro, é um dos poucos engenhos, cuja casa-grande tem um passadiço ligando-o à capela. Na verdade, ambos eram afastados, mas com as sucessivas reformas, os proprietários foram estendendo para os lados, a ponto de anexar prédios dispersos. A cozinha foi também um deles.

Outro detalhe, é que o prédio foi construído em taipa, o que demonstra a rusticidade da casa-grande, diferentemente das casas da Zona da Mata sul, que por pertencerem à Capitania de Pernambuco, mais rica do que a de Itamaracá, foram mais elaborada, do ponto de vista dos detalhes.

Passei uma hora imerso na vida do Engenho Poço Comprido. Da varanda, pode-se constatar o que é comentado em diversos textos. Ou seja, quanto mais elevada era a casa-grande, mas se tinha a certeza de posse, porque a certeza de ser dono tinha que estar à sua frente, visível.

Na mesma estrada que dá no Poço Comprido, tem mais adiante o Iguape, que já virou autosustentável por explorar o espaço para hospedagem. A tarde estava caindo e eu precisava ainda chegar à Goiana.

O dia foi muito produtivo. Ou melhor, todos os dias têm sido ricos em descobertas. Inclusive, de mudanças de destinos. Em Goiana, como não consegui encontrar o Engenho Uruaé, decidi retornar à Recife, mas no meio do caminho vi a placa para João Pessoa.

Abri mão de dois dias que perderia em Alagoas para rever os amigos em Jampa. Esse capítulo não entra.

Só no retorno para Recife, foi que conheci o Engenho Uruaé, a poucos quilômetros do centro de Goiana.

No próximo post, volto a falar sobre Alagoas.


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Rota do Açúcar - Pernambuco, parte 1




Mirante de Vila Velha, antiga sede de Itamaracá, para o canal que divide a ilha do continente.

Os primeiros engenhos visitados nesta viagem pela Rota do Açúcar foram os de Pernambuco, especialmente de quatro cidades: Igarassu, Itamaracá, Nazaré da Mata e Vicência. Como decidi começar por esse Estado, tive que dividir em dois roteiros. No primeiro dia, Igarassu e Itamaracá por serem cidades próximas a Recife; no segundo dia, Nazaré da Mata e Vicência. Goiana estava também no roteiro, mas houve uma mudança no plano de vôo e, em vez de pernoitar na cidade e na manhã seguinte visitar o Engenho Uraié, fui para João Pessoa por estar à meia hora de distância e por ser a capital de que mais gosto entre as da Rota. Como expliquei no post anterior, os engenhos da Paraíba serão visitados noutro momento.
Antes de ir para Igarassu e Itamaracá, eu passei no Museu Gilberto Freyre, em Apipucos, a casa onde o escritor viveu por mais de 30 anos, ela mesma uma das casas-grande do antigo Engenho dos Irmãos. É uma bela quinta, que fica numa elevação e vizinha ao Convento dos Maristas. Aparentemente é grande, devido ao fronstispício largo e alto, mas tem as dimensões mesmas de uma residência de temporada de seus ex-proprietários. Segundo a guia, a estudante de História, Helga, a casa passou a ter status de principal, devido às enchentes do rio que margeava a casa-grande maior tê-la inundado. É proibido filmar e fotografar no interior do museu, no entanto, as informações da guia valeram mais do que rolos de filmes.
Em Itamaracá, só existia no roteiro o Engenho São João. Ele fica às margens da rodovia estadual que liga a ilha ao continente. Embora sob responsabilidade da FUNDARPE, órgão do governo do Estado de patrimônio histórico, o engenho não tem guia para acompanhar os visitantes, apenas um zelador que não tem muitas informações a dar. O que mais chama à atenção é o prédio da moita, onde ainda se vê o maquinário a vapor, o primeiro a ser usado em engenho pernambucano. A área do engenho, que compreende de casa de farinha, posto de saúde e ruínas da casa do administrador, é usada como colônia agrícola para ressocialização de detentos.
Para chegar à ilha, temos que passar por Igarassu, que tem um centro histórico bem conservado, cujos prédios avultam quando se chega na zona central da cidade, principalmente o conjunto do convento, igrejas e paço municipal, além do casario nas imediações.
Em Igarassu, tem dois engenhos listados. O Munjope é o mais importante em termos de arquitetura de Pernambuco, segundo o historiador Roberto Carneiro, da FUNDARPE, com quem mantive contato, e fica na BR 101, retornando para Recife. Mas eu não pude visitá-lo, porque errei o caminho e, como já estava anoitecendo, não queria arriscar.
A importância do Munjope, deve-se a preservação original de seu conjunto, ou seja, casa-grande, capela, moita e senzala, diferentemente dos outros que não tem todos esses prédios. Mesmo que eu acertasse o caminho, não poderia entrar, pois precisa de autorização da FUNDARPE. Ele está sendo reformado e, enquanto estiver nesse processo, não é liberada a visitação, no entanto, o historiador disse que poderia abrir uma exceção para mim.
Planejei visitá-lo no retorno de Goiana, pela mesma BR 101, quando fizesse a rota dos engenhos da zona da mata, na quinta, dia 27, mas não o fiz, porque ao chegar em Goiana, no limite com a Paraíba, na quarta, 26, decidi mudar a rota e visitar João Pessoa.
No próximo post, falarei sobre os engenhos de Vicência e Nazaré da Mata.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Engenhos literários e sentimentais


Logo do Roteiro Integrado da Civilização da Açúcar



O começo da viagem na divisa da Bahia com Sergipe.
Até Recife, foi muito chão, chuva e chocolate, para distrair a boca e dá energia.




Fundação Gilberto Freyre, em Apipucos, Recife, casa-grande onde ele morou, o qual escreveu vários textos sobre a "civilização do açúcar". Lugar belíssimo e inspirador.


Desde sábado, estou viajando de carro pela Rota do Açúcar, ou como institucionalmente o Ministério do Turismo denominou de Roteiro Integrado da Civilização do Açúcar, um produto turístico que visa a diversificar as opções de visitação ao Nordeste, incluindo o interior.

Este projeto engloba os engenhos e usinas de açúcar de Alagoas, Pernambuco e Paraíba, no qual mostra a arquitetura e a memória cultural das cidades e comunidades que surgiram a partir do plantio da cana e da produção de seus derivados, como açúcar, cachaça, álcool e rapadura.

Antes da integração dos Estados em consolidar este produto que, se não é inovador, é rico em opções, eu já me interessava, mesmo que com pouca dedicação de pesquisa, às referências desta cultura do açúcar nas obras de autores nordestinos, como José Lins do Rego, Gilberto Freyre, João Cabral de Melo Neto, Jorge de Lima, José Américo de Almeida, Graciliano Ramos etc.

Agora, decidi unir lazer e trabalho nessas férias para realizar esta viagem de mapeamento pelos engenhos listados no Roteiro. Como o tempo é pouco para percorrer todos as cidades, fiz um recorte geográfico para Alagoas e Pernambuco neste primeiro momento.

É a rota mais rápida, devido à proximidade entre as capitais e os engenhos. A Paraíba foi o primeiro Estado a fazer seu próprio roteiro, já consolidado com produtos diferenciados, como festas populares e degustação de bebidas nas cachaçarias do Brejo, onde se localizam as cidades de Areia, Bananeiras e Serraria. Este roteiro, pretendo fazer na segunda excursão.

Meu projeto se chama "Engenhos Literários e Sentimentais" e deverá ser um documentário de longa-metragem, para 0 qual devo captar recursos e começar as filmagens ainda neste ano. É uma idéia original, cujo interesse tem despertado a atenção de profissionais ligados ao patrimônio histórico e ao turismo. O contato com os gestores nessas áreas têm sido muito proveitoso, pois precisarei de seus conhecimentos para preparar o roteiro audiovisual, inclusive com gravação de seus depoimentos.

Nesta viagem, eu vou fazer o caminho inverso. Segui direto até Recife, com parada em Maceió para pernoite no sábado. Em Pernambuco, devo ficar três dias. Hoje, visitei Igarassu e Itamaracá. Terça, vou mais longe: Nazaré da Mata, Vicência e Goiana. Retorno quarta para Recife e sigo noutro dia para Alagoas, onde começo por Maragoji (norte) até Coruripe (sul). Pretendo chegar a Salvador na segunda-feira, dia 30.

Está sendo uma aventura com sabor de rapadura e talagada de cachaça, tudo isso com moderação, senão dá dor de barriga e embebeda, e ficar indisposto e não poder dirigir é perder o bom da viagem, a descoberta de lugares desconhecidos.